O Google quer
assumir o volante
Durante décadas, a internet funcionou de forma simples: o Google mostrava o caminho, os sites eram os destinos e nós fazíamos a jornada. Cada clique era uma escolha humana. Agora o Google quer assumir o volante — e isso muda tudo o que conhecemos sobre como as pessoas descobrem, consomem e compram na internet.
A internet de ontem
Durante mais de 20 anos, a internet funcionou baseada em cliques. O usuário pesquisava, navegava por diferentes páginas e encontrava marcas, conteúdos e anúncios durante sua jornada. Esse modelo sustentou toda a economia digital — bilhões de dólares em publicidade, SEO, marketing de conteúdo e mídia paga foram construídos sobre uma premissa simples: o usuário navega, o anunciante aparece, a marca converte.
A jornada de descoberta era longa — e isso era bom para quem soubesse aparecer no caminho certo. Cada etapa representava uma oportunidade: de visibilidade, de engajamento, de conversão.
Em sua mais recente apresentação de inteligência artificial, o Google mostrou um futuro em que agentes inteligentes não apenas encontram informações, mas executam tarefas completas. Pesquisam, comparam opções, fazem reservas, organizam viagens e tomam decisões com base nos critérios do usuário.
Não se trata de uma evolução incremental do buscador. É uma ruptura de modelo. A IA deixa de ser uma ferramenta de consulta e passa a ser um executor de intenções. O usuário não precisa mais saber como buscar — ele apenas precisa saber o que quer.
Se você pedir para encontrar um hotel em Gramado com determinadas características, a IA poderá analisar centenas de opções, cruzar avaliações e entregar uma resposta pronta em segundos. O que antes exigia 30 minutos e múltiplas abas agora acontece numa única interação.
O que o Google apresentou
A nova jornada
Com os novos agentes de IA, a jornada de descoberta pode desaparecer. A experiência que conhecemos se comprime em um único passo — e todo o ecossistema construído em torno da jornada do usuário precisa ser repensado.
Isso cria um novo cenário para empresas, veículos de comunicação e profissionais de marketing. Não é uma mudança que acontece amanhã — mas os sinais estão claros: a jornada está encolhendo, e as marcas que não se adaptarem à lógica dos agentes inteligentes correm o risco de simplesmente deixar de existir na percepção do consumidor conectado.
Se as inteligências artificiais passarem a pesquisar, escolher e executar tarefas por nós, quem controlará a atenção? Essa pergunta não é retórica — ela representa a maior disrupção no modelo de negócios da internet desde o surgimento dos smartphones.
E se ninguém
navegar mais?
Quando um agente encontra a resposta por você, quem recebe a visita?
Se não há cliques, quem exibe o anúncio? Como funciona a publicidade digital sem atenção humana direta?
Se a IA filtra e decide, quem controla a atenção — e portanto o poder de influência?
"Talvez estejamos entrando na primeira era da internet em que a atenção humana deixa de ser o principal recurso estratégico."
A grande pergunta
A nova moeda
Durante anos, ouvimos que o conteúdo era rei. Na era da inteligência artificial, a confiança algorítmica se torna ainda mais importante — e mais escassa. As IAs precisarão decidir quais fontes são confiáveis, quais marcas possuem autoridade e quais informações merecem ser utilizadas em suas respostas.
Há uma diferença fundamental nessa transição: antes, você construía reputação para humanos. Agora, você precisa construir reputação para algoritmos que decidem o que mostrar a humanos. São critérios diferentes, métricas diferentes e estratégias completamente diferentes.
A empresa que construiu um império baseado em buscas agora aposta em um mundo onde a busca tradicional deixa de ser o centro da experiência digital. O Google está, essencialmente, destruindo o próprio modelo de negócios para não ser destruído por outra empresa que o faça primeiro.
A lógica por trás disso é brutalmente racional: se a busca vai deixar de existir da forma como a conhecemos, melhor ser a empresa que lidera essa transição do que ser substituído por quem o faça.
É a mesma lógica que levou a Netflix a canibalizare o DVD antes que o streaming o fizesse — ou a Apple a lançar o iPhone sabendo que isso tornaria o iPod obsoleto.
"O Google construiu seu império com base nos cliques. Agora, é a própria empresa que lidera a transformação capaz de reduzir a necessidade deles."
O paradoxo Google
Os setores que serão transformados
A internet construída para pessoas está se transformando em uma internet operada por inteligências artificiais. Todos os setores serão impactados — não apenas os digitais. Qualquer negócio que dependa de ser encontrado, avaliado e escolhido precisa entender essa mudança agora.
Notícias e Mídia
Se a IA sintetiza e responde sem levar o usuário ao site, o modelo de monetização baseado em pageviews precisa ser repensado do zero.
E-commerce
Agentes de compra vão pesquisar, comparar e até finalizar pedidos. Quem a IA escolhe como referência ganha. Quem não tem autoridade desaparece.
Serviços Locais
Reservas, agendamentos e contratações de serviços serão intermediados por agentes. Reputação online e estrutura de dados serão decisivos.
Viagens e Turismo
Planejamento completo de viagem por agente: voos, hospedagem, passeios e restaurantes escolhidos e reservados sem intervenção humana.
Finanças
Comparação de produtos financeiros, simulações e até contratações serão conduzidas por assistentes de IA com base no perfil do usuário.
Educação
Curadoria de cursos, tutores personalizados e trilhas de aprendizado adaptativas gerenciadas por IA — sem necessidade de buscas manuais.
O que fazer agora?
A internet que conhecemos foi construída para pessoas navegarem. A próxima está sendo construída para inteligências artificiais operarem. Os primeiros capítulos já estão sendo escritos.
Para empresas e marcas
O desafio não é mais apenas ser encontrado — é ser escolhido pela IA. Isso exige reputação consolidada, conteúdo estruturado, dados confiáveis e presença em fontes que os modelos de linguagem utilizam como referência. É uma mudança de posicionamento estratégico.
Para profissionais de marketing
A métrica de sucesso está mudando. Impressões e cliques darão lugar a citações e menções em respostas geradas por IA. O KPI do futuro pode não ser o CTR — pode ser quantas vezes a IA menciona a sua marca.
Para veículos de comunicação
O desafio é o mais delicado. Se as IAs sintetizam sem levar ao site de origem, o modelo de monetização baseado em pageviews precisa ser repensado do zero. A autoridade editorial continuará valiosa — mas o valor precisará ser capturado de formas diferentes.
Para criadores e desenvolvedores
Estruturar conteúdo para ser legível por máquinas torna-se tão importante quanto escrever para humanos. Schema markup, APIs abertas e presença em bases de conhecimento indexadas pela IA serão vantagens competitivas reais.
A grande pergunta estratégica dos próximos anos não será "como aparecer no Google?", mas sim: "como me tornar a resposta que a IA vai dar?" Quem compreender essa mudança antes da concorrência terá uma vantagem difícil de ser revertida. E os que chegarem primeiro nesse novo território serão os que definirão as regras do jogo.
Moyses Costa
Estrategista Digital · Sócio-Diretor · Ondaweb — Porto Alegre, RS
Moyses Costa é estrategista digital com mais de 20 anos de experiência em marketing digital, branding e transformação digital para empresas de médio e grande porte. À frente da Ondaweb, agência especializada em websites corporativos, portais e estratégia digital com sede em Porto Alegre, lidera projetos de posicionamento digital, SEO, GEO (Generative Engine Optimization) e arquitetura de conteúdo para clientes nos setores de mídia, jurídico, e-commerce e serviços. Escreve sobre o impacto da inteligência artificial nas estratégias de negócios digitais e o futuro da visibilidade de marcas na era dos agentes.
O clique foi o protagonista dos últimos 25 anos.
A próxima década será definida
pela confiança algorítmica.


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