Desde o início da Copa do Mundo de 2026, a transmissão dos jogos se tornou um dos principais temas de discussão, tanto nas redes sociais quanto nos portais de notícias e nas conversas entre torcedores. O interesse não se limita ao desempenho das seleções.
Pela primeira vez, a competição também coloca em evidência modelos distintos de consumo audiovisual.
De um lado, a CazéTV adquiriu os direitos para transmitir todos os 104 jogos do torneio. Do outro, a Globo lançou uma campanha incentivando o público a comprar antenas digitais para acompanhar as partidas pela TV aberta. A iniciativa foi interpretada por muitos como uma resposta direta ao streaming, especialmente à principal crítica feita às transmissões pela internet: o atraso de alguns segundos que pode ocorrer em relação ao sinal da televisão.
A partir daí, a discussão extrapolou a questão técnica. Afinal, quem entrega a melhor experiência? O público prefere uma cobertura tradicional ou uma linguagem mais descontraída e com um fluxo mais dinâmico? O jornalismo esportivo ainda apresenta um diferencial competitivo? O eventual atraso da transmissão tem mais importância do que o estilo da programação e a atitude dos narradores e comentaristas do canal do streaming? As perguntas mostram que a disputa vai muito além da qualidade da imagem.
O aspecto mais interessante desse cenário é que a concorrência tem impulsionado a inovação. Tanto a Globo quanto a CazéTV investem em novos recursos visuais, formatos narrativos e estratégias de engajamento para conquistar audiência. O resultado aparece na enorme repercussão nas redes sociais, na produção e distribuição massiva de recortes e memes e, principalmente, em uma discussão mais ampla sobre os rumos da televisão aberta, do streaming e do audiovisual esportivo.
Ao mesmo tempo, o crescimento da CazéTV vem acompanhado de uma série de narrativas simplificadas. Uma das mais recorrentes apresenta o canal como um projeto que nasceu de forma espontânea, dentro do quarto do influenciador Casimiro Miguel, e que, apenas com recursos próprios, passou a competir com as maiores emissoras do país.
Embora parte dessa história seja verdadeira, ela costuma omitir um elemento decisivo: a estrutura empresarial por trás do projeto. A CazéTV faz parte da estratégia da LiveMode, empresa especializada em direitos esportivos e transmissão de eventos, que reuniu capacidade financeira para adquirir competições como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Casimiro tornou-se o rosto do projeto justamente por reunir credibilidade, alcance e uma linguagem capaz de dialogar com uma nova geração de consumidores de conteúdo esportivo.
Os resultados comprovam o sucesso da estratégia. Segundo reportagem publicada pela revista Exame em junho, a estreia da Seleção Brasileira contra o Marrocos registrou 12,7 milhões de dispositivos conectados simultaneamente na CazéTV, estabelecendo o maior pico de audiência já registrado por uma transmissão de futebol no YouTube do mundo.
A disputa entre Globo e CazéTV não deve ser encarada apenas como uma competição por audiência. Ela evidencia a consolidação de um novo modelo de consumo audiovisual, marcado por nuances próprias e diferentes formas de narrar, distribuir e experienciar o esporte. Mais do que escolher entre televisão e streaming, caberá ao público decidir, no momento do consumo, com quais linguagens, formatos e propostas estará disposto a se identificar.
Nos últimos dois anos, acompanhei esse fenômeno como objeto de pesquisa acadêmica. Minha dissertação de mestrado, desenvolvida pela PUCRS, analisou justamente as diferenças de narrativa entre as transmissões da Globo e da CazéTV durante os Jogos Olímpicos de Paris. O estudo intitulado A diferença de narrativas entre telas: uma análise das transmissões dos Jogos Olímpicos de Paris na TV Globo e na CazéTV, identifica convergências, divergências e transformações na forma como o esporte é apresentado ao público.
Mais do que comparar dois modelos de transmissão, a pesquisa procura compreender as mudanças no consumo de conteúdo esportivo, a evolução do ecossistema do streaming e os desafios enfrentados pela televisão aberta diante de novos hábitos de audiência.
Leia mais sobre a minha pesquisa no link:
https://tede2.pucrs.br/tede2/handle/tede/12074
Boa leitura.
Danilo Teixeira é gestor de Pessoas e Processos da redação do Jornal do Comércio.


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