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O jipe cor-de-abóbora

Por J. A. Moraes de Oliveira Eu tinha muitos motivos para me orgulhar em ter o João Luiz como amigo. Ele morava na parte …

Por J. A. Moraes de Oliveira

Eu tinha muitos motivos para me orgulhar em ter o João Luiz como amigo.

Ele morava na parte alta da André Puente e era filho de desembargador. Nas minhas visitas, eu sempre achava um pretexto para subir a escadaria de degraus de mármore do sobrado e admirar em suas paredes a série de  pequenas gravuras assinadas por Francisco Goya.

Também nunca perdia uma oportunidade de mencionar as qualidades de João Luiz. Isto sempre produzia um efeito favorável e melhorava minha precária popularidade entre colegas e vizinhos.

Mas o que realmente me qualificava entre os meninos da turma da esquina era seu jipe Willys, pintado de cor-de-abóbora berrante.

Quando o jipe parava na frente da minha casa, o grupo na esquina da Vasco da Gama com a Felipe Camarão interrompia a conversa para esticar um olho comprido rua acima.

Aquele jipe cor-de-abóbora nos levou a longos e aventurosos passeios que alcançavam bairros muito além dos fins-de-linha dos bondes Teresópolis e Partenon.

Lá íamos nós, sacolejando nos incômodos assentos de lona, enquanto João Luiz pisava fundo no acelerador pelos paralelepípedos das avenidas de Porto Alegre, a inebriantes 50 quilômetros por hora.

Além de sua cor bizarra, o jipe chamava a atenção por um adorno especial, que pretendíamos ser um símbolo de rebeldia e desafio.

Exatamente no meio do capô, João Luiz aparafusara a carcaça de uma velha granada-de-mão. E, naturalmente, pintada da mesma escandalosa cor-de-abóbora.

Para os meninos da rua, eu mentia que a granada era de verdade e que estava carregada. Com isso, conseguia alguns minutos de atenção dos mais velhos, que me olhavam de lado, indecisos entre acreditar nas lorotas ou me dar alguns cascudos.

Eu sempre encontrava um jeito de pedir ao João Luiz para vir me buscar em casa, na hora em que um dos grupos se reunia nas esquinas da rua.

Às vezes, a sorte me favorecia – como no dia em que o Willys chegou exatamente quando os meninos judeus se postavam na esquina da Felipe e os alemãezinhos da Ramiro, na outra ponta da rua.

***

Na minha infância, eram raras as famílias das redondezas que tinham carro. Naqueles dias, possuir um auto particular significava muito mais do que não precisar andar de bonde nem subir a Independência debaixo de chuva e vento.

Os sobrados e as casas geminadas não tinham garagem e os carros eram deixados estacionados na rua. Quem tinha um Lincoln, um Packard ou um Studebaker na porta da casa, demonstrava aos vizinhos e passantes que pertencia a uma outra classe.

Era uma classe diferente à das pessoas como nós, sempre preocupadas com o aluguel do fim-de-mês e que compravam fiado no Armazém Vasco.

Mas, até mesmo os possuidores de automóvel se dividiam em diferentes categorias. Os que tinham um Chevrolet ou um Ford eram considerados ricos, mas eu percebia um certo tom de desprezo em meus colegas mais abastados, quando se referiam a estas marcas.

Indaguei de meu pai qual a diferença entre ter um Chevrolet ou um Buick, já que todos eram bonitos e custavam muito dinheiro. Ele achou graça na pergunta, mas me ensinou que, acima do que qualquer coisa, a marca do carro identificava o seu proprietário.

Para começar – disse ele – Chevrolet e Ford eram marcas preferidas pelos motoristas-de-praça, por serem carros resistentes e que não “davam oficina”. Mas esta categoria tinha uma honrosa exceção – o Ford V-8, com o qual os irmãos Catarino e Júlio Andreatta voavam a mais de 150 quilômetros por hora, nas carreteras do interior gaúcho.

Mas – e aqui meu pai fazia uma longa pausa – um Cadillac, Lincoln ou Packard eram carros reservados para os muito ricos. Custavam o dobro de um Chevrolet, precisavam ser encomendados nos Estados Unidos e demoravam meses para chegar ao porto de Rio Grande.

***

Durante muito tempo, por mais que eu me esforçasse, não consegui fazer amizade com os colegas do Rosário que moravam nos Moinhos de Vento e cujos pais estacionavam Cadillacs ou Lincolns em suas garagens. E nunca consegui uma carona naqueles reluzentes carros grã-finos.

Mas um belo dia, a felicidade chegou, quando João Luiz ganhou de aniversário o jipe cor-de-abóbora, com aquela granada espetada no capô.

Finalmente, era a minha vez de provocar inveja nos outros.

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