Por Nikão Duarte*
O dono da verdade X o dono do Brasil
Assim como jornalistas não são donos da verdade, presidentes de República não são donos dos países. O recente episódio envolvendo um dos mais influentes jornais do mundo, o The New York Times, e o presidente de uma das mais importantes nações emergentes, o Brasil, constitui um produtivo exercício das conseqüências sempre inevitáveis quando uma ou ambas as partes ignoram essa condição.
Um jornalista é um profissional voltado para o interesse público, porque o que escreve se destina ao coletivo, mesmo que trabalhando para uma empresa privada. E como um presidente de República é um homem público pela própria natureza da função que exerce, ambos, jornalista e presidente, estão sob permanente julgamento social.
Ao escolher os hábitos do presidente brasileiro como notícia de interesse público, o correspondente norte-americano exerceu um papel para o qual se preparou e ao qual está habilitado. Ao tratá-lo como o tratou nas páginas do jornal, no entanto, submeteu-se ao julgamento não apenas dos seus leitores, mas de todos a quem a informação alcançou. Inclusive ao presidente alvo da notícia.
Ao optar por manter na Presidência hábitos pessoais como jogar futebol, promover churrascadas e aparecer em público bebendo, o presidente do Brasil também sujeita-se à opinião de quem o vê – sejam seus eleitores ou não; sejam brasileiros ou leitores do NYT mundo afora.
Tanto a decisão do jornalista – de propor um assunto no âmbito de sua cobertura – quanto a do presidente – de aparecer em público portando copos com bebida – concentram riscos como os que correm diariamente qualquer pessoa a cada atitude que toma. Mas presidente da República é um só, e jornalistas, embora inúmeros, constituem apenas uma atividade profissional. Já cidadãos, são todos os que absorvem as notícias e emitem juízo sobre o que elas contêm e de quem elas tratam.
No episódio em questão, que ultrapassou todos os limites do bom senso, em especial de quem se esperava que a ele recorresse para repor as coisas no seu lugar adequado, é inevitável concluir-se que há defeitos técnicos numa matéria de um tema relevante em que o alvo da notícia sequer teve a chance de expor sua versão. Da mesma forma, não se pode assimilar como aceitável a reação governamental brasileira, desproporcional desde o primeiro momento, e descomunal pela decisão de expulsar um estrangeiro em situação regular simplesmente porque escreveu e publicou algo que desagradou aos poderosos de plantão.
A delegação que a sociedade dá ao presidente da República resulta da legitimidade conquistada pelo voto, por tempo determinado. Não inclui a propriedade do País, de seus cidadãos e das idéias que circulam em seu território. A delegação obtida pelos jornalistas no exercício de sua profissão é idêntica à de todos os demais trabalhadores e, portanto, sempre sujeita à revogação, inclusive pela repetição de erros. Se, como parece neste episódio, sucederam-se erros de parte a parte, o brasileiro foi o de confundir público com privado, numa reação a que não foi dado o direito aos adversários do atual presidente da República quando, na oposição, seus seguidores várias vezes avançaram da crítica pública para a pessoal, atingido-lhes até a honra. Mas essa é apenas mais uma contradição…
* Nikão Duarte é jornalista.

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