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O livreiro que enfrentou a censura

Por João Firme A propaganda do Rio Grande do Sul teve um anunciante que não temeu as ameaças dos censores em 1965. Leopoldo Bernardo …

Por João Firme

A propaganda do Rio Grande do Sul teve um anunciante que não temeu as ameaças dos censores em 1965. Leopoldo Bernardo Boeck, dono da Livraria Sulina, uma das maiores redes de lojas de comercialização de livros que chegou a ter filiais no interior gaúcho e em alguns municípios de Santa Catarina. Pois ele aceitou patrocinar o programa de nossa idealização com a condução dos formandos da primeira turma de jornalistas da Famecos, que está comemorando 40 anos.

A Tribuna Acadêmica começou no Canal 5 dos Associados e após passou para o Canal 12, por convite da direção da emissora, e bateu todos os recordes de audiência, repercutindo na imprensa nacional. Era um debate autêntico com jovens universitários sabatinando conhecidos políticos e personalidades como Ademar de Barros, ex-governador de São Paulo; José Pinheiro Neto, o homem das ligas campesinas; diplomata Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos; e os deputados federais Unirio Machado e Doutel de Andrade e alguns deputados estaduais, entre eles Cândido Norberto.

Como estávamos vivenciando o primeiro ano da Revolução de março de 64, o programa teve o maior índice de audiência nos dois canais de TV pela sua autenticidade. O patrocinador foi advertido para o cancelamento do programa após quatro edições no novo canal e resistiu. Por isso lhe tiraram o telefone. Soubemos que na época a loja matriz que existiu até o final do século XX na Avenida Borges de Medeiros era vigiada constantemente, e o insigne Leopoldo não se intimidava e entusiasmava-nos na continuidade.

Antes dos noventa dias, aconteceu a última apresentação das sabatinas entre políticos e jovens jornalistas. O convidado era o deputado federal Doutel de Andrade, o político que mais combatia a Revolução. Fomos chamados para uma reunião e um diretor da emissora nos comunicou a intervenção do censor: o programa não iria ao ar sob pena de suspensão das transmissões. Após intenso diálogo com o representante do general Justino Alves Bastos, comandante do III Exército, foi autorizada ir ao ar a última edição com a condição de Doutel Andrade fazer um ataque “em tese ao regime exceção”.

Sob a tristeza dos estudantes, do anunciante e de diretores do veículo de comunicação, saiu do ar a Tribuna Acadêmica, mas ficou marcado o desejo de liberdade de expressão e o estado de direito patrocinado pelo grande livreiro, Leopoldo Bernardo Boeck.

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