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O mais célebre homem nascido em Stratford-upon-Avon

Por Rafael Bordin Schuch O inglês William Shakespeare foi o maior dramaturgo de todos os tempos, e entre as suas célebres obras, uma das …

Por Rafael Bordin Schuch

O inglês William Shakespeare foi o maior dramaturgo de todos os tempos, e entre as suas célebres obras, uma das mais interessantes é “O Mercador de Veneza”. Tida como comédia, mas lembrada por suas cenas dramáticas, a peça escrita no final do século 16 retrata a história de um contrato firmado entre um financista e um mercador, mostrando como pano de fundo a Veneza do início da Idade Moderna. Além disso, mostra a intolerância que os judeus sofriam na época, sendo considerados pelos cristãos, usurários.

Seu enredo se baseia na história de Bassânio, que pede um empréstimo a Antônio para fazer uma viagem até a cidade da bela Pórcia de Belmonte. O mercador Antônio estava com sua fortuna, seus barcos e mercadorias, no mar. Mas, para auxiliar seu amigo, aceita ser o fiador de um empréstimo. Assim, Bassânio procura Shylock, um financista. Este estava esperando um motivo para se vingar do mercador, que, além de realizar empréstimos sem juros atrapalhando seus negócios, mostrava desprezo pelo judeu. O agiota impõe uma condição inusitada por não cobrar juros: se o empréstimo não fosse honrado no prazo de três meses, Antônio daria uma libra da própria carne como pagamento. Bassânio protesta, porém, Antônio se surpreende com a “generosidade” do agiota que não cobra juros, e por se mostrar confiante que logo seus navios estarão de volta, assina despreocupadamente o contrato.         

Ao saber que os navios de Antônio naufragaram, Shylock decide ir até o tribunal do duque de Veneza cobrar na frente dos juristas venezianos o insolvente Antônio, respaldado pelo contrato assinado. Em Belmonte, após seu casamento, Bassânio fica sabendo da situação em que o mercador se encontra e decide auxiliar o amigo levando dinheiro. Sem que os dois saibam, Pórcia faz com que seu criado, Baltasar, peça ajuda do seu primo, um advogado de Pádua chamado Belário.

No tribunal, Shylock segura uma faca como confirmação de sua vingança, mesmo Bassânio lhe oferecendo o pagamento. O duque, desejando salvar Antônio, mas não querendo abrir o perigoso precedente legal de invalidar um contrato, passa a decisão ao visitante chamado Baltasar, Pórcia disfarçada. Ela traz além de uma carta de recomendação para o duque do advogado Belário, seu ajudante, Nerissa, também disfarçada. Baltasar pede a Shylock que tenha misericórdia, prontamente negada. No momento exato do começo do corte, uma disfarçada Pórcia avisa o judeu que ele tem direito de remover uma libra de carne, mas nenhuma gota de sangue, pois está escrito no contrato: “Uma libra de carne”. Caso isso aconteça, o governo confiscaria toda a fortuna de Shylock, que então hesita, aceitando o pagamento antes oferecido. Entretanto, é informado que não teria mais direito à oferta, por antes tê-la recusado, e, por isso, deve legar metade do que tem ao governo e metade a Antônio, deixando a sua vida à mercê do Duque que, na mesma hora, poupa a sua vida. Em troca por esta “generosidade” concedida pelo Estado, Shylock é obrigado a se converter ao cristianismo.

Ao final da peça, Shylock, mesmo negando o judaísmo e tornando-se cristão, não encontra situação agradável em sua vida, pois sendo um judeu convertido será expulso da comunidade judaica e rejeitado pelos cristãos.

Em 2004, a obra foi adaptada para o cinema em um filme cujo elenco é integrado por Al Pacino (Shylock), Joseph Fiennes (Bassânio), Jeremy Irons (Antônio) e a bela Viola Lynn Collins (Pórcia). Esta ilustração da peça toma cuidado ao chamar a atenção do espectador ao mostrar que a sede de vingança de Shylock tem propósitos reais, pois inicia com um texto que versa sobre as condições de convívio dos judeus dentro da cidade de Veneza, que mesmo sendo, então, a mais poderosa e liberal cidade-estado da Europa e extremamente cosmopolita para a época, permitia que os judeus sofressem desprezo, tanto social quanto econômico. Mostrando ainda que os judeus, por lei, viviam dentro de um gueto e sempre que saiam fora dos seus muros eram obrigados a usar um gorro vermelho como identificação. 

Recomendo aos interessados tanto na história do começo da Idade Moderna, quanto ao apreciador das questões jurídicas e sociais, a leitura da peça. E, após essa imprescindível leitura proporcionada por um gênio da literatura nascido na pequena Stratford-upon-Avon, objetivando ilustrar melhor a obra, a apreciação do filme lançado em 2004.

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