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O maravilhoso cinema sem pipoca

Por Renato Martins, para Coletiva.net

Quando eu era repórter de rádio, cobri, numa tarde de sábado, o triste incêndio do Ponto de Cinema/Sesc, que destruiu uma sala de cinema alternativa no centro da capital gaúcha. A programação deste espaço era feita pelo jornalista Carlos Schmidt, que conheci nos anos 80. Foi lá que vi, por exemplo, o clássico italiano Ladrões de bicicletas, entre tantos outros. Eu já era bastante amigo do Schmidt e foi um tanto angustiante ter que entrevistá-lo durante aqueles sofridos momentos, naquela longínqua tarde de abril de 1992.

Mas ele se reinventou, ousou e abriu uma rede de cinemas que passaria a fazer história na cultura de Porto Alegre: o Guion Cinemas. Primeiro, na Cidade Baixa, com três salas, depois na Zona Sul (onde há décadas ninguém mais tinha investido em sala de cinema) e até mesmo no Aeroporto Salgado Filho o Schmidt resolveu implantar uma sala, o ‘AeroGuion’.

Grandes e inesquecíveis filmes foram vistos no Guion por hordas de cinéfilos e admiradores do bom cinema. Filas imensas tomaram conta da rua Lima e Silva, por exemplo, para ver obras que viraram clássicos, como O carteiro e o poeta. Saíamos da faculdade para ir ao Guion, o programa de fim de semana era ir no Guion, antes ou depois de jantar, tomar café ou namorar, era Guion.

Comandados pelo pulso firme do Schmidt, sua esposa Aiko e equipe, os cinemas ficaram conhecidos pela devoção ao ofício da cinematografia, com regras que às vezes surpreendiam os espectadores: a casa proibiu balas, pipocas e chocolates, dentro das salas de projeção, por causa do barulho – obviamente porque atrapalhava a experiência de quem assistia às películas. Num segundo momento, inventou potinhos de borracha onde as pessoas podiam abrir os sacos e levar as guloseimas para comer vendo o filme, mas ainda sem ruídos.

Outra característica era exibir os filmes de Arte da brilhante programação até o fim do rolo, sem acender as luzes. A ficha técnica era projetada até o seu término, constrangendo propositalmente os apressadinhos que, se quisessem ir embora nos créditos finais, então teriam que o fazer no escuro mesmo. Era somente para os fortes… que saudades de ver as tais letrinhas até o fim e no escurinho do cinema!

Vieram as diversas crises, os multiplex nos shoppings, e o Guion seguia lutando com sua programação verdadeiramente seleta, com filmes de uma cinematografia e qualidade absolutamente especiais. A matriz, no Centro Comercial Nova Olaria, passou a vender discos, livros e DVDs, tornando-se um ponto de encontro e de referência da elite (e de outros não tão elitistas) intelectual da cidade. Era bom demais encontrar as pessoas, conversar sobre os filmes e celebrar a sétima arte.

Frequentemente, eu visitava o Schmidt na sua sala lotada de filmes, livros, posters e caixas, antes de assistir a alguma sessão lá. Ele me contava histórias e antecipava os títulos que chegariam. Idealizamos juntos alguns eventos, sessões especiais e até uma festa temática de cinema eu inventei com o apoio dele. O Guion Sol, na zona sul (onde muitas vezes levei meu primeiro filho para matinês), e o Aeroporto fecharam, e o primeiro Guion resistia, como um quartel general – quase um bunker – da família Schmidt. Nós nos distanciamos por essas coisas da vida, mas sempre acompanhei sua luta e seus sucessos.

A pandemia sacramentou, neste mês de agosto de 2021, um fim que estava próximo e já vinha sendo anunciado pelo Schmidt, um jornalista que se entregou de corpo e alma para o cinema, e que nunca entrou na fila duas vezes para ser franco, direto e um guerreiro incisivo em nome do cinema. Restam as memórias de um ótimo tempo que eu e boa parte dos porto-alegrenses vivemos, de um empreendimento que valorizou a arte de fazer – e assistir a filmes – sem igual.

Renato Martins é jornalista, professor e palestrante.

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