Por Antonio Oliveira
Depois de uma grande crise em que foram demitidos quase todos os integrantes da equipe de Esportes do jornal Zero Hora, José Antonio Ribeiro, o Gaguinho, assumiu a editoria. Eu acabara de escapar de uma crise na Rádio Gaúcha, de onde fugira na calada da noite para não dar ao novo gerente o gostinho de me afastar.
Após uma semana de férias forçadas, me apresentei ao diretor Lauro Schirmer e ele me fez uma sondagem bem ao seu estilo (depois de meter o dedo no nariz, claro): “Tu te dá bem com o Gaguinho? Se tu fores trabalhar com ele não vais ficar o tempo todo brigando com ele?”.
Era a saída que Lauro me oferecia depois de seis meses na direção de Jornalismo da Rádio Gaúcha. Topei na hora. Não recordo o ano, devia ser lá por 1973. Como chefe de reportagem da editoria de Esportes, me coube começar a montagem de uma nova equipe. Restaram da equipe anterior, se não me falha a memória, os redatores Kenny Braga e o poeta Luiz de Miranda. O Higino estava chegando com outro baiano.
A Seleção Brasileira retornava de uma excursão pela Europa, onde todos os jogadores e comissão técnica romperam o diálogo com a imprensa. Ninguém dava entrevista. O centromédio Carbone era o representante do Inter e dos gaúchos nesta Seleção e chegava ao aeroporto Salgado Filho.
Sem repórter para mandar, chamei o poeta e redator Luiz de Miranda e dei a orientação. Você vai ao aeroporto fazer a chegada do Carbone, matéria de ambiente, sem entrevista. Miranda ouviu e ficou em silêncio, tentando deglutir, e eu ouvindo no canto uma observação do Gaguinho: “Tu tá louco, vais mandar o Miranda pro aeroporto!!!…….”. Respondi que era ele, eu ou o próprio Gaguinho. Não tinha outra opção. Ou o Kenny, que ainda não tinha chegado à redação.
Gaguinho também ficou por ali tentando engolir, mas Miranda não resistiu. Me chamou, bem sério, e questionou: “Antonio, escuta aqui, olha bem pra mim. O que tu achas que eu tenho a ver com o Carbone? E o que é que o Carbone tem a ver comigo?. Me safa desta, por amor de Deus!!!”.
Foi quando a porta se abriu e um sujeito bem magrinho, cabelo e barba bem feitos, me saudou. Era irmão do meu melhor amigo, o Fred. Eu já o conhecia de frequentar sua casa na Duque de Caxias, mas não tínhamos muita intimidade, até pela diferença de idade. Fred e eu éramos um pouco mais velhos.
Fred tinha me segredado que ele era muito bom, escrevia muito bem, mas sabe como é, recomendação de irmão mais velho, protetor, tem tudo para ser parcial.
Mal ele deu boa tarde e já disse-lhe: vais ao aeroporto fazer a chegada do Carbone. Ele arregalou os olhos e o Gaguinho quase teve outro chilique. Saltou da cadeira e ficou impaciente, como a querer me chamar para falar em particular: “Tu vais mandar um cara que acaba de chegar para fazer teste ao aeroporto fazer a chegada do Carbone?. Tu tá louco?”.
Ele foi, voltou e sentou à frente de uma velha Remington (seria isto ?) e sem muitas (ou nenhuma) palavras, começou a redigir. Depois de algum tempo, apresentou uma lauda e meia, escrita com perfeição, sem nenhuma letra rebatida. A matéria definitiva, cheia de detalhes, que certamente pode ser encontrada ainda hoje nos arquivos implacáveis de Zero Hora.
Passei o texto ao Gaguinho, ele leu e deu um grito: “Gordo (ele e Ruy Carlos Ostermann tinham a mania de me chamar de gordo e até hoje não descobri a razão), agarra este cara e leva lá no Pessoal para assinar o contrato. Não deixa ele sair!!!”.
Foi assim que começou sua carreira de jornalista (é bem verdade que já iniciara estágio no Diário de Notícias, de onde eu o roubei) o meu eterno amigo Mauro Pacheco Toralles, o Boró, que foi aposentado, mandado para casa descansar pela RBS, na última quinta-feira, depois de 38 anos de casa. Deixo aqui o meu grande abraço e minha homenagem a este enorme profissional descartado.
Eu não o vejo e não falo com ele há muitos anos, mas duvido que o meu amigo Boró estivesse querendo ir para casa descansar.

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