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O milagre vem da chuva

Por José Pedro Jobim O Brasil é o país da solidariedade. Do engajamento social, do ombro amigo, da reconstrução de Santa Catarina. É sério. …

Por José Pedro Jobim

O Brasil é o país da solidariedade. Do engajamento social, do ombro amigo, da reconstrução de Santa Catarina. É sério. De fato, como manda o jargão do presidente, nunca antes na história deste país se viu algo parecido como a mobilização feita – e ainda ativa – em prol dos vizinhos mais ao Norte que tiveram boa parte de suas belas paisagens devastadas pela natureza em seguidas enchentes. Não poderia ser diferente. O que aconteceu naquele estado – e que nos últimos dias, para perplexidade nacional, se repete em Minas Gerais – é algo muito próximo da mais pura fatalidade, injustiça. No caso, da natureza, do destino, do El Ñino, de Deus, creem alguns. Enfim, de alguém, de algo.

E é isso mesmo o que impulsiona a nossa solidariedade. Ajudar é um verbo de mão dupla e extremamente mais fácil e gratificante de se conjugar, pois, muitas vezes, não está sobre os nossos ombros a responsabilidade direta do problema. Assim é mais fácil. Erguemos cidades, arrecadamos milhões e dormimos as recomendadas oito horas diárias sem ter sequer de chegar ao segundo ou terceiro carneirinho.

Tenho certeza de que a solidariedade é um milagre. Contudo, toda a vez que deixo Porto Alegre por qualquer motivo e vejo da janela do ônibus aqueles aglomerados de favelados miseráveis – parte deles, quem sabe, em situação semelhante a quem sofreu e perdeu tudo em Santa Catarina – que cercam toda e qualquer metrópole, me pergunto quando vai chover para eles.

O Brasil é o país da solidariedade. Mas ela deve ser pontual, factível, midiática e, acima de tudo, isenta de nossa culpa, pois admitir que a responsabilidade é nossa em determinado problema é sempre mais difícil e um fator inibidor no ato solidário.

Estou convicto de que pelas milhares de esquinas, por debaixo dos viaduto gaúchos, catarinenses ou não, deve ter gente rezando para uns pingos a mais do céu e que culminem na doação, quem sabe, em um agasalho, cobertor ou o velho e bem conhecido quilo de alimento não-perecível. Afinal, o Natal já passou e, solidariedade, é que nem chuva de verão.

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