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O mundo está mais chato ou mais humano?

Por Carolina Schubert, para Coletiva.net

Na última terça-feira, eu não almocei. Meu dia passou batido. Estava com muito trabalho, fui indo, indo e indo. Quando me dei conta, já estava “morrendo de fome”, cansada e, automaticamente, recorri a um app de comida para lidar com a situação. 

O dia havia sido difícil, então, optei por um burguer bem grandão para ter aquela sensação gostosa do que muitos chamam de confort food. Não sou taurina, mas levando em consideração a astrologia, com certeza, Touro está aqui em algum lugar, porque se tem uma coisa que me deixa mal humorada é ficar com fome.

Faltava uma hora para o lanche chegar e eu, ansiosa. Continuei trabalhando para o tempo passar mais rápido. Eis que chega o tão aguardado pacote. Sai correndo para atender à porta. Tropecei e tive que retornar do elevador, pois esqueci a máscara. É impressionante como ainda não me acostumei com essa coisa de proteger a boca e o nariz até para transitar pelo hall do prédio.

Estava chovendo, nem tinha me dado conta. Desci o lance de escadas para alcançar o portão da rua com cuidado, afinal, um tropeço por dia já é o suficiente, né? Eis que vejo o sorriso mais bonito do dia e não era o do entregador, não. Era o da sacolinha do aplicativo, que, lentamente, saiu da caixa do motoboy para as minhas mãos. 

Subi as escadas atenta, porém saltitante. O caminho entre térreo e sétimo andar mais parecia a eternidade. Eis que finalmente abro o pacote. Tive vontade de chorar. Colocaram uma garrafa de água gelada ao lado do burguer e das batatas. E a confort food transformou-se em uma porção de gelo e um lanche em forma de pedra. Coloquei tudo na airfryer e comi assim mesmo. Bom não ficou, mas eu estava morrendo de fome.

Depois, claro, peguei meu telefone e gravei vários stories para aquele app conhecido. Usei um filtro engraçado e discorri sobre minha enorme chateação com o restaurante que me mandou um lanche frio. Minha barriga deu até uma roncadinha enquanto gravava. 

Logo, bateu o sono, e fui dormir. Acordei com o telefone tocando. Era a TV Mirante. Eles precisavam resolver comigo a agenda de entrevista com a Tribo de Jah, que por sinal, nesta sexta-feira está lançando o álbum ‘Até Que o Bem Triunfe no Final’, disco em comemoração aos 35 anos de banda.

Agora, voltando ao assunto.

Acordei, resolvi o problema da TV Mirante. Agendei uma exclusiva no G1. E voltei para o app dos stories. Dei uma olhadinha, apaguei um vídeo aqui e outro ali para postar mais conteúdo matinal. Quando, de repente, me caiu uma ficha imensa.

Fazer piada sobre estar passando fome não tem graça. Se pensarmos bem, até a expressão “morrendo de fome” é inadequada. E, há um tempo atrás, eu ia achar essas mesmas afirmações uma grande chatice, afinal, é só uma piada boba e uma forma de falar no superlativo. Acontece que tem gente que, de fato, morre de fome, passa fome e sente no estômago o que pra nós é uma roncadinha à toa.

Essas piadas já foram mais normais para mim, afinal, somos muito o reflexo do ambiente em que vivemos. E eu, como uma pessoa privilegiada em muitos sentidos, outras muitas vezes não conseguia me dar conta sobre realidades que não a minha.

Talvez, a gente feche os olhos para algumas questões das quais não podemos resolver por inteiro. Eu não posso exterminar a fome. Mas, com certeza, posso ter uma postura diferente diante desse assunto tão sério ao tomar consciência de um novo ponto de vista. Assim como não devo aceitar e normalizar outras tantas atitudes que se repetem no dia a dia relacionadas a assuntos tão sérios quanto esse.

Hoje, eu tenho um outro grande privilégio de ter conhecido muita gente envolvida com o rap, com cultura de rua. Já ouvi diversos tipos de histórias, inclusive, de pessoas que passaram fome.

E é esse o ponto que eu quero chegar. Quando não temos informação sobre algo, quando não estamos de forma alguma inseridos em uma realidade específica, o mundo pode parecer mais chato e até intolerante com piadas que por ventura consideramos inofensivas.

Mas respondendo a pergunta do título:

Não, o mundo não está mais chato. Por mais que ainda exista uma grande maioria que não se dá conta, por outro, existe uma parcela significativa de pessoas que está mudando sua perspectiva para melhor. Eu não tenho uma porcentagem exata sobre isso. Mas eu acredito, de verdade, que o mundo, sim, está se tornando mais humano.

E, embora eu perceba que essa movimentação não tenha a proporção ideal, ainda, estou feliz de poder fazer parte dessa parcela de seres que conseguem enxergar vacilos e corrigi-los, sem nem ao menos outra pessoa precisar chamar a atenção. Fico orgulhosa também em ter a oportunidade de falar sobre isso através desse convite de escrever um artigo para o Coletiva.net.

Ah, eu apaguei todos os vídeos, fiz outros falando sobre a questão e pedindo desculpas. E cá estou. Esse foi meu primeiro texto por aqui. Espero que você tenha gostado, refletido, continue acompanhando os próximos e se quiser me seguir lá no app: o arroba é @ca.schubert.

Carolina Schubert é jornalista e sócia-diretora da Porque Assessoria.

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