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O novo Gerson

Por Alfredo Fedrizzi* Como tudo no mundo midiático de hoje, Zeca Pagodinho virou, da noite para o dia, referencial de malandragem e de esperteza. …

Por Alfredo Fedrizzi*

Como tudo no mundo midiático de hoje, Zeca Pagodinho virou, da noite para o dia, referencial de malandragem e de esperteza. E teria garantido, se já não fosse famoso, os seus 15 minutos de fama. Mas acabou ocupando um outro lugar nas manchetes dos meios de comunicação. Muito além do samba e do pagode – o que faz muito bem, acabou insuflando um debate já velho sobre as tais questões éticas. Que lugar é este? Não acredito tanto na ingenuidade de um Zeca Pagodinho – um irresponsável, talvez, que se deixou levar pela sedução de um marqueteiro nato, quase sem escrúpulos, e pelo dinheiro, é claro. E que não teve nenhum prurido em deixar passar a imagem de “tudo por dinheiro”.

Por aí, não sobrou nada. Nem vergonha, nem respeito, o que dirá ética. Aliás, alguém ainda sabe o que significa ética?

Todas as imagens foram arranhadas, sim! A da cerveja, a do Zeca, a do Nizan, a da propaganda e a dos publicitários em geral.

Até uma das mais tradicionais e consagradas formas de vender, a dos testemunhais, saiu fortemente arranhada desse episódio. Será que o povo vai continuar dando o mesmo crédito para uma pessoa de sucesso que diz adorar determinado produto, recomenda sua compra e logo aparece oferecendo outro? Ou vai achar que ele está fazendo aquilo só por dinheiro e não por acreditar no que está vendendo?

Mas até que ponto esses arranhões vão influenciar o comportamento das pessoas e entidades?

Zeca Pagodinho se defendeu como pôde e foi até elogiado pela sua esperteza, assim como os publicitários e as empresas envolvidas. Mas o que ficou no ar mesmo foi uma sensação de “vale tudo”, como se o fim justificasse os meios. É um péssimo exemplo para a sociedade, com certeza. Mas também é tudo tão passageiro, tão transitório, que logo cai no esquecimento e outros fatos bombásticos ocupam as manchetes.

Na verdade , a velha “lei de Gerson” não poderia estar mais na contramão do que pensa o brasileiro hoje. Honestidade, solidariedade e trabalho são os valores mais prezados pela maioria da população. A conclusão é o fecho de um amplo estudo realizado pela Interscience no 1º Congresso Brasileiro de Pesquisa. O trabalho listou oito principais valores que compõem a identidade nacional: trabalho, honestidade, amizade, solidariedade, humildade, romantismo, alegria e competências (como inteligência e talento). A sociedade condenou o que considerou uma atitude de incentivo ao comportamento oportunista.

Como estamos na era BBB, pergunto: O que é ficção? O que é realidade? O Jornal Nacional? A novela das oito? O comercial de cerveja? As tardes de domingo regadas a Faustão e Gugu? Os telejornais estão impregnados de novelas, com suas futricas palacianas. E as novelas estão cheias de telejornal, mostrando a violência das ruas ou fazendo campanhas filantrópicas.

Outro dia, Paulo Caruso, na sua tradicional charge da última página da revista IstoÉ, mostrou uma grande confusão no Palácio do Planalto. Lula pede ajuda ao Gushiken, que grita: “Chamem os publicitários! (alusão aos “universitários” do Silvio Santos).

Ou seja, para cada sujeira, rolo, problema, chamem um publicitário que ele maquia tudo! É claro que nossa atividade abriga bons e maus profissionais, como em todas. Mas é certo que, no dia-a-dia, a maioria dos publicitários trabalha muito sério e o que fazem não tem nada a ver com essa enganação.

* Alfredo Fedrizzi é publicitário e jornalista

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