Artigos

O pão e o texto

Por Rafael Codonho, para Coletiva.net

Há pouco mais de dois anos, comecei um novo percurso: aprender a fazer pães. E — um tanto inconsequente e ignorante do que vinha pela frente — fui logo para a modalidade mais desafiadora: os de longa fermentação. Para quem não é iniciado nessa vereda, como o próprio nome já indica, é um processo que envolve tempo. Muito tempo. Entre a primeira etapa, que se dá com a alimentação do levain, até a mordida, são umas 24 horas ao todo. 

Vivo profissionalmente da escrita há mais de quinze anos, período bem maior do que o da minha experiência enfarinhada entre bannetons, termômetros culinários e espátulas. E me deparei com uma gigantesca similaridade entre um ofício e outro. Curiosamente, um dos mestres na jornada panificadora é um jornalista de belíssimo texto que se apaixonou pela arte de unir farinha, água e fermento: Luiz Américo Camargo. 

Mas, afinal, como promete o texto deste artigo, o que pão tem a ver com texto? Observando pela superfície, nada. Mas indo ao fundo da questão, tudo. Sem exageros. Lá eu vou lançar mão de um trocadilho boboca: escrever tem sido meu ganha-pão desde o início da carreira. Então, vamos às similaridades.

Escrever é um compromisso

Exige autocontrole e disciplina. Percebeu que virou moda defender que a escrita vem ao natural? Tudo é fluxo de consciência, tudo é impulso, tudo é criatividade que brota. É só parar ali um pouquinho, bater as teclas e está pronta a obra-prima. Mesmo os sujeitos sem fé parecem depositar, nessa tarefa, uma inquestionável fé no Espírito Santo. 

E aqui invoco outro professor, o crítico literário Rodrigo Gurgel. Corajosamente, ele vai na contracorrente desse pensamento — que, no fim das contas, é uma defesa do desleixo. Ele lembra das árduas rotinas de figuras como Ernest Hemingway, que acordava todos os dias e ia direto para a máquina de escrever, parando apenas longas horas depois. Assim também é com os pães sourdough: se você confiar demais no improviso, eles vão pregar alguma peça. Pode contar. 

Escrever é trabalho

Envolve empenho, suor, dedicação. Gosto de ver as redações originais dos livros de grandes escritores ou até mesmo os discursos de presidentes norte-americanos. Faça esse exercício você também. São folhas com textos repletos de rabiscos de caneta vermelha, rasuras e anotações nas margens. Às vezes, assemelham-se a provas de alunos abaixo da média sendo admoestados por professores diligentes. 

Um bom texto é espancado (!): é escrito, reescrito, editado, revisado. Passa pela supressão de ideias fracas, eliminação de repetições e adição de novos argumentos. E melhor ainda se você puder contar com um amigo sincero para avaliar o resultado — como eu contei aqui. O mesmo acontece na panificação natural: o glamour fica apenas com a foto da baguete dourada postada no Instagram para o elogio dos famintos. O que vem antes de tudo isso? Esforço, às vezes até físico, a depender da receita.   

Escrever é ter atenção aos detalhes

Passa por denodo e beleza. Certa vez, ouvi um elogio imbatível a um conhecido: “ele pensa em parágrafos”. O sujeito era tão inteligente que expressava seu raciocínio de forma assustadoramente estruturada, ordenando os argumentos e chegando à conclusão cabal. Como superar alguém assim em uma discussão? Por outro lado, seja no texto ou no pão, uma pequena falha ou esquecimento, entre dezenas de acertos ao longo do processo, compromete tudo. 

Uma das primeiras lições que recebi de Percival Puggina — que muito me ensinou — foi quanto à simetria: não dá para um texto reunir ora parágrafos esquálidos, com duas ou três linhas, ora roliços, que se alongam por quase meia página. A estética na disposição das palavras soma pontos e é um gesto de respeito ao leitor. Dito de outra forma, um bom texto é visual. E também é sonoro, devido à sua cadência: há pausas e respiros, proporcionando momentos de reflexão. Pois assim também é na hora de fazer pão, onde cada movimento e cada minuto importam.         

Escrever é dizer um e outro não

Fazer pain au levain é um compromisso que anula tantos outros, justamente pela atenção que requer. Precisa dar um pulinho no mercado? Não dá, pois está na hora das dobras. A filha está querendo ir ao parque? Nada feito, minha pequena: chegou o momento — inadiável — da primeira modelagem. Desculpe. Não há como pular etapas, e apertar o passo pode arruinar o resultado final. 

Em tempos de pico de ansiedade e quando tudo deve ser resolvido imediatamente, eis que o pão — o alimento mais rudimentar e antigo do mundo — nos traz uma série de lições. A bem da verdade, é um santo remédio para os males da modernidade. Tudo tem seu rito e seu tempo. E, por isso, acaba sendo uma forma bem manual e concreta de exercitar a virtude da paciência. Produzir um bom texto não é exatamente assim?  Precisamos de silêncio, concentração e refutar tudo aquilo que nos distrai.

Escrever é não ter o domínio total

Lá no início, falei no tal do levain: é a mistura de farinha e água, com uma decisiva ajuda da natureza. Microorganismos atuam nessa matéria e despertam a fermentação. E um padeiro depende totalmente desse líquido de aspecto pouco atrativo para dar o próximo passo. Se ele não crescer até determinado nível, sem chance de avançar. Pode cancelar a programação e fazer outra atividade. Esqueceu de alimentar o bichinho? Já era: ele morreu e será preciso começar tudo do zero, — o que leva mais de uma semana. 

Em suma: o domínio não está totalmente conosco. Nem tudo cabe em processo, nem tudo segue o planejado; há um tantinho de espaço para intuição e sensibilidade. E o que falar dos imprevistos? Um texto que era genial no plano das ideias e vira nada no papel? Ou um pão que tinha tudo para ser perfeito, mas, ao abrir a tampa da panela de ferro, vem achatado como um disco-voador? E, pelo lado positivo, que satisfação é morder uma casca crocante e ver um interior repleto de alvéolos. Ou, fazendo de novo o paralelo, ler uma crônica que nos comove quando chegamos ao ponto final. 

Talvez aí esteja um dos segredos da vida: fazer o que é certo e saber que, mesmo assim, o imponderável nos aguarda ali na frente. Fazer texto é como fazer pão.

Rafael Codonho é jornalista, especialista em Geração de Conteúdo, estrategista de Reputação e sócio-diretor da Critério – Resultado em Opinião Pública.
Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.