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O Pianista de Cremona

Por J. A. Moraes de Oliveira A um canto pouco iluminado, o homenzinho dedilhava seu piano com comovente devoção. Sua execução de Debussy mostrava …

Por J. A. Moraes de Oliveira

A um canto pouco iluminado, o homenzinho dedilhava seu piano com comovente devoção. Sua execução de Debussy mostrava uma visível competência, apesar de que nenhum dos clientes do restaurante prestasse a mínima atenção.

Eu me compadeço desses músicos anônimos, condenados a tocar despercebidos em bares e restaurantes. Após alguns minutos, sua música acaba amortecida pelo tilintar de talheres e cristais, os clientes absorvidos no cardápio e em animadas conversações.

Depois de certo tempo, eles assumem um ar de conformidade, tocando mecanicamente o mesmo repertório. Enquanto aguardam pelo próximo intervalo, para um gole atrás do bar ou um furtivo cigarro no banheiro dos fundos.

Mas este era um músico diferente. Se portava como se recusasse a fazer parte do pano de fundo do restaurante. Seu dinner jacket era novo e parecia ter sido passado a ferro minutos antes. Ao concluir um número, ele se erguia e agradecia com gestos de cabeça aos aplausos inexistentes.

***

Dediquei mais atenção ao homenzinho. Evidentemente, era uma pessoa fora do comum. Me intrigava deparar com um pianista tão dedicado naquele local. Pois não estávamos em Cremona, a cidade onde foram forjados os Amatis, Stradivarius e Guarnieris – os mais lendários violinos que o mundo já conheceu? Qual seriam os estranhos descaminhos do destino que levaram o homenzinho de dinner jacket a tocar piano – e não violino – em Cremona?

Minhas divagações foram interrompidas pela chegada de alcachofras marinadas para o antipasto. O pianista de Cremona parecia ter notado que contava com um ouvinte no salão e se esmerou no finale da sonata de Liszt.

O cordeiro com ervas estava excelente e o piano parecia soar cada vez melhor. Minha euforia ficava ainda maior quando, pela janela, eu admirava a torre Il Torrazzo, dominando a paisagem medieval. Me demorei por mais algum tempo, prolongando os prazeres do momento, pedindo mais uma garrafa de Chianti Classico, que chegou à mesa escoltado por um pungente e cremoso gorgonzolla.

***

O pequeno restaurante estava quase vazio, mas o homenzinho atacava Chopin, como se uma grande platéia o estivesse assistindo. No intervalo, mandei convidá-lo para um Chianti. Ele hesitou por um instante, mas ajeitou o dinner jacket e veio até a mesa – era bem mais baixo e franzino do que tocando piano.

Aceitou um copo de vinho e sorriu condescendente, quando fiz a pergunta que me incomodava – por que um pianista, na terra dos violinos imortais? Ele tinha uma resposta pronta. Disse que vinha de uma antiga família cremonense e que seu nome era Giulio di Curcio. Por imposição do pai, estudara violino até os 12 anos, mas, na primeira vez que ouviu um piano na academia de música, apaixonou-se perdidamente pelo seu som.

Continuou em sua não-solicitada biografia, dizendo que era violinista no conjunto de cordas do conservatório, mas que, na hora do almoço, escapava para tocar piano em restaurantes. E concluiu: “Eu sou o único pianista de concerto em toda Cremona“. Fiquei sem saber o que dizer – se demonstrava piedade ou admiração.

Consultou o relógio, agradeceu o Chianti e voltou para o piano. Apenas duas mesas estavam ocupadas e os garçons bocejavam entediados, no fundo do salão. Giulio assumiu o piano e iniciou o que deveria ser a pérola de seu repertório – o Concerto nº 1 de Rachmaninoff.

Antes do final do primeiro movimento, o restaurante esvaziou-se e os garçons se ocuparam em preparar as mesas para o jantar. Hesitei – devia ir embora ou ficar até o fim? Com certeza, Giulio ficaria mortificado em perder seu único espectador. Permaneci até o último acorde.

Aplaudi e me encaminhei para a saida. Da porta, acenei em despedida e Giulio agradeceu com uma solene mesura.

O único pianista de Cremona parecia feliz.

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