Por Flávio Porcello*
Já começou a contagem regressiva para as eleições municipais deste ano. As candidaturas ainda estão sendo construídas mas logo, logo as campanhas eleitorais estarão nas ruas de mais de 5.500 municípios brasileiros que escolherão prefeitos e vereadores em 2004. As últimas pesquisas de intenção de voto mostram que a grande maioria dos eleitores ainda está indecisa. E esse é um elemento a mais para dar ânimo a todos os pré-candidatos e seus partidos.
Mas antes mesmo da campanha eleitoral esquentar convém fazer breve reflexão sobre a principal arma que todos os candidatos utilizarão em suas campanhas: a Mídia. O objetivo deste artigo é examinar, mesmo que o tempo e o espaço não permitam aprofundamentos maiores, as relações de interesse e troca existentes entre o Poder e a Mídia no Brasil. De antemão sabe-se que são profundas e nem sempre muito claras para a opinião pública as relações de interesse e troca. Mídia e Poder têm inúmeros interesses em comum e mantém relações bastantes intensas: o Poder concede favores e a Mídia retribui, apoiando o Poder. E o veículo de comunicação de maior influência entre os que compõem a chamada Mídia eletrônica é a TV. Por isso, convém refletirmos um pouco.
As cores, formas, palavras e sons que, através da TV, ajudam a construir a cultura e o imaginário dos brasileiros também são dispostas diante dos olhos de quem as vê de maneira subjetiva. Claro que há muita ideologia por trás desse mosaico que brilha luminosamente nas telas da TV.
É preciso observar e questionar a capacidade que a TV tem de montar e remontar o passado, segundo as conveniências da ocasião. Na tela colorida os inimigos de ontem aparecem como aliados de hoje, e vice-versa.
As empresas de Mídia precisam muito do socorro financeiro que só pode vir com a ajuda do Governo Federal. E os eleitos também vão precisar da Mídia para governar. Assim, a relação de interesse e troca que caracteriza a TV e o Poder no Brasil, permanece inalterada.
Nem todos precisam concordar com o que estão lendo. O objetivo aqui não é o de buscar consenso. Mas, sim, de suscitar o debate, levantar questões, propor discussões. O propósito dessas linhas é o de oferecer desafios, questionamentos e provocar inquietações para que deixemos de ser telespectadores passivos, conformados, sem postura crítica. Diante da TV, devemos ser críticos, ter discernimento e usar a capacidade de indignação contra os excessos que ela comete. Afinal, o controle remoto está ali, ao alcance da mão. E o seu dedo polegar pode mudar tudo. Não gostou? mude de canal, vá atrás de coisa melhor. Exija que a TV ofereça o que ela pode e deve lhe dar.
Você está vendo um programa que se diz imparcial? Desconfie. Imparcialidade não existe. A simples seleção do que é, ou não é, “fato jornalístico” já pressupõe uma escolha. A neutralidade é falsa. A meta, para exercer o bom jornalismo, é ter isenção. Pois o jornalista é subjetivo até no momento em que escolhe as palavras que irão compor o seu texto. Do jornalista devemos exigir completa honestidade. O papel social do Jornalismo é exercer o espírito crítico e fiscalizar o Poder. tt
Você sabe: se a maioria votar em um candidato ele vai vencer a eleição. Vale o mesmo para TV que você vê. Se a maioria exigir uma programação melhor, a pressão também vai funcionar. Fica aqui uma sugestão: aproveite para treinar no controle remoto da TV o dedo que você vai usar para escolher seu candidato preferido na urna eletrônica em outubro.
*Flávio Porcello é jornalista, diretor de Marketing da TVE/RS.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial