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O Quadro que não estava lá

Por J. A. Moraes de Oliveira Toda a vez que ia a Madrid, eu dedicava algum tempo para revisitar a obra de Francisco Jose …

Por J. A. Moraes de Oliveira

Toda a vez que ia a Madrid, eu dedicava algum tempo para revisitar a obra de Francisco Jose de Goya y Lucientes no Museu do Prado, fascinado por suas “Pinturas Negras” e seus “Os Desastres da Guerra”.

Mas, na última visita ao museu, perambulando pelos corredores e salas, fui dar, por acaso, na ala Diego Velásquez. Eu pouco sabia sobre o grande pintor, mas havia lido que Goya o considerava seu maior inspirador.

Movido por um impulso, procurei a sala de “Las Meninas”, seu quadro mais admirado.

A sala estava quase deserta. Sentei-me em um banco e fiquei admirando a grande tela, que voyeurs, críticos de arte e estudiosos da história de Espanha vêm tentando decifrar nos últimos 350 anos.

Ele era de Sevilha e afirmava que não queria ser apenas um pintor de reis e rainhas e, sim, o melhor pintor de coisas e pessoas comuns. No entanto, um outro destino estava reservado para o jovem Diego Rodriguez de Silva Velásquez.

Aos 24 anos, ele fez o primeiro de muitos retratos do rei Felipe IV. Foi nomeado pintor da corte e passou o resto da vida retratando os grandes de Espanha. Velásquez foi muito além de retratar reis e rainhas – ele exercitou uma ácida e irônica leitura de sua época, procurando a verdade dos retratados, vasculhando pecados e demônios interiores.

Nos muitos retratos que pintou do rei Felipe, pode-se ver as estigmas das tragédias que se abateriam sobre o monarca e seu reinado – a prematura morte dos filhos, as malogradas aventuras militares, a perda de territórios e a derrocada financeira do Estado.

Ninguém sabe se Felipe IV possuía a presciência de que, após seis gerações de poder ininterrupto, a linhagem dos Habsburgos na Espanha estava com seus dias contados.

Como um impiedoso crítico de seu tempo, Velásquez registrou alguns dos inequívocos traços dos Habsburgos – aqui, uma boca indecisa; ali, o queixo voluntarioso, mais além, aquele olhar de lubricidade. Coincidências ou não, a história acabaria por confirmar a tibieza do soberano, a infelicidade da rainha, os frutos deformados do incesto.

E quando pinta um imponente retrato eqüestre do rei, o faz parecer uma figura apática, alheio à majestade do cenário e até ao garbo do cavalo, empinado nas patas traseiras.

Mas, enquanto somos capazes de decifrar as mensagens embutidas nos retratos de nobres e monarcas, ficamos confusos diante dos quadros onde  Velásquez reescreve – ou desafia – as leis da pintura de seu tempo.

Em “A Vênus no Espelho”, de 1651, ele exibe o dorso de uma bela mulher que se olha em um espelho. Mas o espelho reflete uma outra face, que não pertence à mulher, nem reflete o seu olhar. Esta outra face admira a parte da frente do corpo desnudo da Vênus.

Este quadro permaneceu por décadas escondido em alcovas e quando foi exposto pela primeira vez em Londres, causou torrentes de escândalo e polêmica. Mais uma ironia do artista, que recria uma Vênus para desafiar o moralismo da era vitoriana, 200 anos depois de sua morte.

Em 1664, em outra uma obra enigmática, “As Fiandeiras”, coexistem quatro dimensões, uma embutida dentro da outra. Em primeiro plano, um incrível efeito estroboscópico na roca de fiar. No fundo iluminado, figuras mitológicas diante de um afresco que evoca Júpiter seduzindo Europa. E outros personagens passeiam no limite entre um quadro e outro, mas ninguém sabe dizer a qual cena pertencem.

Muito já se escreveu sobre as figuras exalando decadência em “O Triunfo de Baco”, ou sobre o rosto fatigado e derrotado de “Marte, o Deus da Guerra”.

Também é famoso o estranho olhar do papa Giovanni Battista Pamphilli em “Retrato de Inocêncio X”, pintado em 1650. Ali, está anotado um diabólico brilho de crueldade e de ambição nos olhos do pontífice, envolvido pelas luzes das vestes e ornamentos de ouro. Um revelador retrato da força da corrupção e do poder.

O grande e permanente enigma na pintura de Velásquez nasceria em 1657, quando ele retratou a família real em “As Meninas”, usando várias dimensões dentro do mesmo quadro. Há que se dedicar um demorado olhar a este quadro surpreendente, para perceber alguns dos segredos implantados pelo artista. Alguns afirmam que não se trata do retrato de um grupo de pessoas, mas um retrato do ar que os cerca.

Podemos ver Felipe IV e a rainha Mariana da Áustria, refletidos no espelho ao fundo, aparentemente sendo retratados por Velásquez. Este aparece de frente para o espectador e diante de uma grande tela, onde, na verdade, está sendo pintado o quadro que não nos é revelado.

Ao centro, a infanta Margarida mira de esguelha o espectador, cercada pelas meninas Isabel Velasco e Agustina Sarmiento. Uma anã macrocéfala, vestida com galas e com ar dominante – que não vemos na infanta – encara com desafio a quem olha o quadro. A seus pés, um mastim não olha para a frente (será verdade que cães não olham para os espelhos?).

Ao fundo, em um retângulo de luz, o cavalheiro Don José Nieto aparece surpreendido no ato de abrir – ou fechar? – uma porta que dá acesso ao mundo exterior.

Os críticos de arte escrevem que Velásquez criou uma nova perspectiva ao colocar o objeto da pintura no ponto de vista de quem olha o quadro – o rei e a rainha, pois eles aparecem refletidos no espelho ao fundo.

E é para eles que a infanta, a anã e o próprio pintor olham diretamente.

Mas a pergunta permanece – então, qual é o quadro que Velásquez está pintando na tela que está à sua frente?

Depois de estudar demoradamente “As Meninas”, o filósofo Ortega y Gasset escreveu que o mistério de Velásquez não está apenas em seus quadros, mas no próprio artista, que viveu na corte, retratou com fina ironia reis e princesas, mas manteve a amizade e o apoio de Felipe IV até o fim de sua vida. Como teria sido possível pintar dezenas de quadros, ironizando os mais poderosos de seu tempo e mesmo assim, manter seu prestígio na corte?

E o filósofo conclui: “Velásquez pintou a Verdade que ninguém, naquele tempo, queria ver. Ele foi um homem que conhecia a arte de não existir”.

Na mesma busca de respostas, Theóphile Gautier deixou-nos uma pergunta que não foi respondida, para adensar ainda mais o véu de mistérios sobre Diego Velásquez.

Depois de admirar “As Meninas”, ele simplesmente murmurou: “Mas aonde está o quadro?”

•••

 Quando saí para a rua, naquela luminosa manhã do outono madrilenho, eu estava liberto das bruxarias de Goya. Mas, um outro poderoso feiticeiro da arte da pintura já se havia apoderado de meus sonhos e fantasias.

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