Por Farhad Manjoo
Os sinais de que o jornalismo como conhecemos está em uma terrível crise estão por todos os lados há algum tempo. Todos os dias jornais fecham ou encolhem, empresas de comunicação demitem a rodo, anunciantes deixam de bancar páginas supercaras em jornais para comprar posts em blogs e comerciais no Youtube, a audiência do tal “jornalismo sério” – de documentários e grandes reportagens – está em baixa, a credibilidade da grande mídia parece em franco declínio, o sensacionalismo, extremismo de opinião e superficialidade dão o tom de muitas manchetes nos jornais, capas de revistas, chamadas na TV e títulos em portais.
Não esquecendo, é claro, que repórter de jornal é atualmente a pior profissão do mundo, dizem.
Mesmo que você não seja um coleguinha, deve estar familiarizado com este cenário e todo o discurso de lamentação que segue. Eu, como parte interessada (é o meu futuro!), já participei de debates, vi aulas, centenas de artigos e livros, troquei emails, gastei muito teclado e saliva tentando achar soluções – e tenho lido várias opiniões interessantes nos últimos e particularmente sangrentos dias. Quanto mais discuto, mais eu tenho a impressão que para garantirmos a sobrevivência, ou “refundação” daquele jornalismo que sonhamos na faculdade, precisamos voltar muitos passos e décadas para entender a raiz filosófica do problema, que só se mostrou mais aparente com a internet. E estamos adiando essa conversa ao tratar de coisas como modelos de publieditoriais, novas narrativas em HTML5, “engajamento em social media” e coisas assim. Todas essas questões parecem importantes, mas elas só servem para dar uma falsa esperança de que o modelo que estamos erradamente acostumados terá uma sobrevida. Ken Levine define de maneira elegante por que a crise se agravou na última década nos EUA e finalmente chegou com toda a força no Brasil:
“Entender por que os jornais estão quebrando, mesmo chegando a cada vez mais gente [pela internet], requer o entendimento que eles nunca estiveram no ramo de vender notícias – ao menos não diretamente. Os jornais fazem dinheiro amealhando um público e o vendendo a anunciantes. (…) Os executivos dos jornais americanos viram a internet como um meio de conseguir o que sempre quiseram: um público cada vez maior para anunciantes e, verdade seja dita, um palco mais abrangente para atuar. Com a distribuição online praticamente gratuita, milhões de leitores estavam apenas a um clique de distância, e eles entenderam que os dólares da publicidade estariam lá prontos a serem apanhados. Mas eles ignoraram as regras básicas de oferta e demanda.”
O erro primário de cálculo dos empresários de comunicação – de desconsiderar a concorrência e a finitude da verba publicitária ante um “inventário” infinito – está causando uma perda de qualidade não apenas na Velha Mídia™, mas no jornalismo em geral, em um momento onde nunca precisamos tanto de bom jornalismo para separar o sinal do ruído. Robert McChesney, fundador da Free Press e autor de várias obras sobre jornalismo, diz em seu último livro, Digital Disconnect, que não há esperanças no atual modelo. Há sinais positivos aqui e ali (mais aqui), mas no médio prazo não teremos dinheiro o suficiente para viver os tempos áureos – que foram bem menos áureos que poderiam – de redações lotadas.
“A solução para o problema de gerar jornalismo suficiente começa com o reconhecimento de que ele é um bem público. Jornalismo é algo que a sociedade requer mas que o mercado não consegue gerar em quantidade ou qualidade suficientes. O mercado não é capaz de solucionar o problema, não importa quão fantásticas sejam as tecnologias.”
Para ele, as empresas de jornalismo estão insistindo em um erro de mais de 100 anos, que até uma década atrás se disfarçava de regra (ou oportunidade, para os empresários ingênuos): a ideia de que a publicidade sempre vai pagar as contas do jornalismo e ainda por cima gerar lucro. Quanto mais cedo acordamos para a realidade de que a internet deixará definitivamente este sonho para trás, melhor as nossas chances de redesenhar o futuro. Spoilers: McChesney também acha que o paywall não é exatamente a solução, e sua argumentação faz bastante sentido.
Se o jornalismo é importante e as leis do mercado não dão conta de pagar a conta do mínimo jornalismo necessário na era da internet, quem vai? Antes de tentar achar algumas respostas, precisamos começar o processo de separar o jornalismo ofício do jornalismo-empresa.

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