Por Gabriel Besnos
Na arte contemporânea, nada é mais importante do que o processo criativo do artista e a sua proposição de diálogo com o espectador. Como publicitário, dono de agência, me interessa cada vez mais entender como a criatividade se constrói, se manifesta e é transformada em um produto tangível e mensurável. No centro de arte contemporânea Inhotim, em Minas Gerais, o preço da criatividade é a nossa emoção. Mistura de museu a céu aberto e jardim botânico, Inhotim é uma experiência tão universal que, mesmo sem os códigos da arte contemporânea, todo visitante é capaz de se envolver por aquela proposta. Lá, a receita do sucesso é um ABC: Arte, Botânica e Cidadania. Inhotim é, sobretudo, uma ideia apaixonada – e apaixonante.
A dificuldade de acesso é parte importante da experiência. Inhotim está deslocado dos grandes centros urbanos e dos espaços habituais de museus de arte. No trajeto, em meio ao município de Brumadinho, paira uma sensação muito típica dos interiores Brasil afora – o relógio passa mais devagar, o trilho do trem pontua os vilarejos e as estradas parecem abertas a facão. Sessenta quilômetros ao sul de Belo Horizonte está o antigo retiro de fim de semana do minerador Bernardo Paz, que vem sendo transformado, desde o final da década de 1990, em um museu / jardim botânico / projeto social. As terras de ‘nhô Tim, o antigo senhor latifundiário da localidade, abrigam hoje um outro tipo de produção.
Você ainda ouvirá muito que “Inhotim não parece o Brasil”. A colocação é compreensível, mas eu ouso discordar. Inhotim não é apenas um belíssimo e bem cuidado jardim com instalações e galerias perfeitas e funcionais, senão um contexto de transformação da realidade que só poderia ter lugar no Brasil. Inhotim não é reproduzível em qualquer outro país. A participação da população de Brumadinho como mão de obra (qualificada) da instituição, a preocupação didática da curadoria artística e até mesmo o isolamento geográfico contribuem de forma decisiva para a experiência do visitante. Em cada uma das 17 galerias que despontam em meio aos jardins de cartão postal é possível perguntar para um monitor, normalmente nascido na região, informações sobre a obra e o artista em questão. Não é difícil perceber o que isso representa localmente em termos de resgate da cidadania e de construção de um novo tipo de diálogo entre brasileiros. Impressionam não só a ambição das realizações de Inhotim, como a apropriação do espaço pelas pessoas – colaboradores, artistas e visitantes, convidados permanentemente à interação.
Sem os limites da “sala branca” dos museus tradicionais, o artista em Inhotim pode expressar-se livremente. Apenas isso já transformaria a instituição em um novo paradigma da realização artística contemporânea, mas a qualidade do acervo é ainda mais reveladora do tanto que Inhotim representa de novo no cenário das artes mundial.
Destaco a instalação Beam Drop (2009), do americano Chris Burden, que recriou em Inhotim uma obra realizada em 1984 em um parque de esculturas de Nova York, destruída três anos depois. Durante 12 horas, 71 vigas de aço foram lançadas por um guindaste a 45 metros de altura em uma poça de cimento fresco, numa área alta e afastada de Inhotim. Beam Drop poderia ser traduzido como “vigas em queda”, e esse material, recolhido de construções de Belo Horizonte, compõe uma obra de enorme significado. A violência contundente do aço lançado ao solo e projetado por este rumo aos céus, a poética do acaso com que as vigas formam o visual monumental da escultura, o conflito permanente entre a ação humana e a natureza: todos elementos simbólicos desta obra icônica. Beam Drop é mesmo como Inhotim – uma instituição universal e fincada à sua terra; brasileira, regional e projetada do seu chão para o mundo.
Através do caleidoscópio gigante do dinamarquês Olafur Eliasson, é possível observar a paisagem. O jogo de espelhos típico deste brinquedo infantil, aqui em larga escala, serve como moldura para a Máquina de ver (Viewing Machine, 2008). Basta movimentar a estrutura e tudo muda, sem mudar. A mensagem é forte: o olhar, qualquer que seja, é sempre uma escolha. Está sempre enquadrado por uma experiência e pela subjetividade do espectador. Cada homem é como uma “máquina de ver”, impondo um determinado recorte para enxergar o mundo.
A forma de contemplação das pinturas da brasileira Adriana Varejão tem a interferência decisiva do projeto arquitetônico de sua galeria exclusiva. A construção do espaço é brilhante: passamos pelo hall de entrada, subimos as escadas, detemos nosso olhar nas paredes e no teto até chegarmos a um terraço em que é possível conviver e acessar um novo espaço verde, em um trajeto de fluidez absolutamente inteligente. A obra de Varejão guarda relação intrínseca com a arquitetura; daí seu interesse pelos azulejos, pela construção, destruição e ocupação dos espaços. É notável o trabalho de interação entre arte e arquitetura nesta galeria.
Somadas aos trabalhos de nomes já conceituados da arte brasileira como Helio Oiticica, Amílcar de Castro, Cildo Meireles e Tunga, essas obras me pareceram representativas de uma concepção da experiência artística que evidencia o processo criativo. O ofício do criador está transparente e ao alcance. É mensurável o impacto das vigas de Burden caindo no solo de Inhotim, o preciosismo da pintura de Varejão nos azulejos e a adequação do projeto arquitetônico de sua galeria, a escolha do melhor posicionamento para o caleidoscópio gigante de Eliasson em meio a um cenário idílico. É claro que há obras mais herméticas, mas, de forma geral, Inhotim diferencia-se também porque não é nada blasé. Naqueles jardins, é possível viver a arte e a criatividade com desenvoltura.

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