Por Guilherme Arruda Meu início no jornalismo teve cheiro de gasolina. Era para ser diferente. Queria trabalhar na editoria de Variedades da Folha da Tarde, onde atuava a jornalista Laila Pinheiro, mulher do também jornalista Ibsen Pinheiro. O ano: 1977. Eu era colaborador do caderno, com matérias sobre cinema. Fazia pesquisas com os grandes diretores do momento. Gostava daquilo. Certa vez abriu vaga na redação e a Laila mais do que depressa disse. “É no automobilismo. Fica lá um tempo, um ou dois anos, e depois muda para cá”. Meu estágio no automobilismo durou oito anos. Nunca voltei para o caderno.
Fazia cobertura das corridas de baratinha, que logo descobri serem monopostos, de carros de passeio, ou de turismo e ainda os lançamentos das montadoras. De um dia para outro me vi cercado de monstros sagrados da crônica automotiva brasileira da época. Uma das primeiras pessoas que conheci foi o jornalista Valter Boor, que havia trabalhado na linotipia da Caldas Júnior, empresa que editava os jornais Correio do Povo, Folha da Tarde e Folha da Manhã, comandada pelo doutor Breno Caldas até 1984, quando foi decretada a sua falência.
Linotipia vinha a ser o sistema de composição da época. Eram máquinas enormes, verdadeiros monstros de ferro, perfiladas lado a lado em um imenso salão, que cuspiam fumaça entre braços e pernas de homens fortes e muito habilidosos que mexiam alavancas e pedais para compor as letras, as frases, parágrafos e textos — seja qual fosse o tamanho. Uma a uma as letras, os sinais, os símbolos eram criados ali, com chumbo, e auxílio de uma pequena caldeira. Os textos eram montados com as letras inversas, como nos carimbos — para facilitar a compreensão.
Quando acontecia a distribuição das laudas de papel entre os linotipistas, o Valter fazia questão de pegar as que tratavam de automobilismo. Todo mundo naquele lugar sabia disso. E todos o respeitavam. Com o tempo ele foi observando o jeito como o assunto era tratado, os detalhes das competições, os bastidores, as performances dos competidores, enfim, tudo o que cercava o mundo automobilístico. Dizia-se que, informalmente, ajudada os repórteres da época, quando não, apontando incoerência de dados.
Por causa do alto grau de insalubridade, a turma da linotipia tinha aposentadoria especial, com 25 anos de trabalho. O Valter se aposentou cedo, acredito que não tinha 50 anos de idade. Em seguida, o caminho dele cruzou com a redação.
Quando o conheci, em 1978, no autódromo de Tarumã, em Viamão, ele já trabalhava no Caderno de Automobilismo do Jornal do Comércio de Porto Alegre. Os textos eram um primor de objetividade. Relatos imensos. Descrevia volta a volta o desempenho dos pilotos. Poucas vezes vi fotos abertas em cinco ou seis colunas. Sua política era tratar a todos sempre com respeito e igualdade. Assim, na cobertura de uma etapa do campeonato de rally, era comum ver estampadas as fotografias, se não de todos, de quase todos os participantes.
O Valter era metódico. Seus hábitos eram bem conhecidos. Não dispensava o cigarro, o copo de uísque e o filé com fritas e ovos. Mas ele desenvolveu outras habilidades.
Ainda no final dos anos 70, o governo federal deu início ao programa de incentivo ao uso do álcool como alternativa de combustível para driblar a segunda crise do petróleo (1979), que provocou um forte racionamento de gasolina. Era o Programa Nacional do Álcool (Proálcool). As montadoras investiram tempo e dinheiro no desenvolvimento de motores que se adaptassem ao álcool. Fiat e Ford deram preferência à economia em detrimento da potência e, neste sentido, promoveram alguns “duelos” interessantes sob a forma de “testes de economia” para verificar quem percorria o maior número de quilômetros com um litro do novo combustível.
O público era incentivado a passar nas revendas – independente da marca do seu carro. Paralelamente, o departamento de marketing das montadoras reunia jornalistas que cobriam a área automotiva e repetia a dose com eles. Pois não é que o Valter tornou-se um respeitado piloto de testes? Venceu dezenas desses eventos, batendo medalhões do jornalismo, notadamente, de revistas especializadas, como Quatro Rodas e Auto Esporte, entre outras. Adquiriu um know how fantástico. A cada torneio que surgia, alguém avisava: “Vai dar o Valter”. E dava mesmo.
Certa vez, a Ford Brasil promoveu um teste reunindo quase duas dezenas de jornalistas de todo o Brasil. O desafio era partir em comboio de Porto Alegre em direção a cidade de Punta Del Este, no Uruguai, numa tacada: 800 quilômetros sem abastecer, utilizando modelos de linha, como Corcel II e a pick-up. Todos os carros foram preparados, abastecidos e lacrados pelos engenheiros da Ford. A coordenação foi do jornalista paulista Luis Carlos Secco, o “Seccão”. Foi ele quem distribuiu as duplas e explicou as regras.
Cada dupla poderia utilizar seus próprios conhecimentos, desde que não infringisse as leis de trânsito, principalmente, não andar lento demais. Valia aproveitar o vácuo para diminuir a resistência do ar, alinhar os retrovisores laterais para obter o mesmo efeito. Nas duas pontas do comboio ficariam os integrantes de apoio da fábrica na eventualidade de alguém precisar de ajuda ou errar o caminho. Ao vencedor caberia um prêmio que, estrategicamente, foi anunciado somente no final do percurso.
O homem da linotipo era cobiçado por dez entre dez jornalistas. Tive a sorte de fazer dupla com ele.
A largada foi em frente ao Hotel Continental, no largo da rodoviária, logo após o café da manhã. Partimos em direção à BR-290 com o Valter no comando do volante – até porque eu tinha pouquíssimas noções de direção, e, pior, não era portador de carteira de motorista. Um pecado para quem, como eu, militava na área automotiva. Tudo bem, eu sabia que mais cedo ou mais tarde haveria de tirar a carteira.
Havia um certo número de carros á nossa frente e outro tanto na nossa cola, entre os quais as duplas de revistas automotivas. A impressão era de que eles nos observavam o tempo todo, cuidando cada movimento. Para começar, o Valter pediu para desligar o rádio e fechar os vidros. Todos os movimentos eram feitos com suavidade. Nada o tirava daquele ritmo, nem as longas e sonolentas retas entre as cidades de Rio Grande e Chuí, no extremo sul do Rio Grande do Sul. Algumas delas tinham mais 40 quilômetros de extensão.
A essa altura ele dirigia sem sapato. A meia pisava o acelerador com extrema leveza. Nada poderia acontecer de surpresa, sob o risco do planejamento ir para o espaço. Uma freada brusca significaria um consumo extra de álcool. Minha função como navegador era medir o consumo, que, diga-se, era calculado em gotas, e não em litros.
A noite chegou e com ela a cidade de Punta Del Este. Antes que o sol se pusesse o comboio foi levado a um posto na cidade onde já havia uma bomba com álcool. Os técnicos da Ford iniciaram os procedimentos para abastecer os veículos, anunciando o consumo à medida que fosse completado o tanque. Ali mesmo o Secco divulgou resultado: ganhamos o teste com a espantosa média de 17 quilômetros e alguma coisa por litro de álcool. Diferença mínima para o segundo colocado.
Dezenas de testes foram promovidos nos anos seguintes para indicar o carro mais econômico. E quem aparecia em primeiro lugar?
Nesse mês de dezembro se completam dois anos do seu falecimento. Até o fim da vida, aos 70 anos, ele a dedicou ao automobilismo. Não sei ao certo se alguém lhe atribuiu o título de Rei da Economia. Para mim, sempre será lembrado assim, como o Rei da Economia.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial