Por J. A. Moraes de Oliveira De sua janela, ele conseguia avistar as folhas mais elevadas da imensa árvore. Ela deveria estar ali por muito tempo, mesmo antes da rua ser aberta, da cidade ser fundada, até mesmo antes dos primeiros colonos alemães e italianos ali chegarem, quase 200 anos atrás.
Gostava de imaginar o que o velho carvalho teria testemunhado ao longo de sua longa existência. Sob sua grande copa, tinha a sensação de que o tempo havia parado, pois ali não chegava o barulho da cidade, que agora despertava para mais um dia agitado, com as pessoas em carros nervosos, subindo e descendo a grande avenida, para ganhar um tempo que logo estaria perdido.
***
Ele não tinha certeza de como se calculava a idade das grandes e antigas árvores que havia encontrado em seus caminhos e descaminhos pelo mundo. Guardava com carinho a majestosa imagem dos velhos carvalhos que vira em lugares remotos, onde grandes civilizações haviam deixado marcas indeléveis em pedras e monumentos.
Gostava de fantasiar que aqueles troncos nodosos, junto a sítios históricos, seriam capazes de sussurrar-lhe, nas noites calmas de outono, fragmentos da vida e dos amores de personagens, que agora só poderiam ser lembrados em castelos vazios ou em igrejas silenciosas
Em viagem, pesquisava os imprecisos relatos e lendas sobre o que teria acontecido sob a sombra das árvores centenárias nas grandes florestas da Europa. Tivera sorte certa vez, quando, vagando por uma floresta próxima a Londres, descobrira uma alameda de faias e carvalhos, da época de Henrique VIII.
Perguntando aqui e ali, localizara uma placa marcada pelo tempo. Registrava o local onde Elizabeth I costumava descansar, depois das enlouquecidas cavalgadas promovidas pelo rei.
Invejava alguns amigos viajantes, que conheciam o interior da Escócia e da Irlanda. Eles contavam de velhas árvores que demarcavam os territórios das antigas clãs e sob as quais se celebravam rituais de guerra e de paz. Um deles havia até jurado que encontrara um marco com inscrições druidas, sob um álamo milenar, nas falésias irlandesas.
Mas, naquele momento, ele estava muito longe de lá, viajando por uma interminável auto-estrada no sul da Espanha, tentando achar a saída para uma cidadezinha medieval, que não constava no mapa nem em seu guia de viagens. Ali, ele esperava encontrar uma igreja românica, próxima às ruínas de uma fortaleza em estilo mudéjar, da época da dominação moura.
Ficava encantado quando descobria edificações antigas, próximas umas das outras, mas que pertenceram a civilizações separadas entre si por muitos séculos. Mas agora tudo estava por terra, construídas e destruídas por povos que já esquecemos ou que nem sabemos quem eram.
Se procurasse com paciência nas redondezas das velhas muralhas, quase sempre encontrava uma floresta centenária, guardando silenciosamente os segredos dos homens e mulheres e ali viveram e morreram.
Às vezes tentava arrancar de um pastor de ovelhas ou de um sonolento guarda de museu alguma lenda ou memória sobre as ruínas ou sobre a floresta. Mas quase sempre o que recebia era um indiferente levantar de ombros ou um muxoxo de descaso.
Então, na quietude da capela românica, de paredes grossas como muralhas, buscava entender o significado dos séculos que por ali passaram. Nas paredes, figuras em pedra tentavam manter viva a imagem de nobres e guerreiros de uma história esquecida. Os brasões esculpidos nas portadas, guardados por leões heráldicos, pareciam familiares – talvez das casas de Aragão e Castela e poderiam datar dos tempos dos Reis Católicos, que expulsaram os mouros e ordenaram a Colombo procurar o Novo Mundo.
Aquelas mesmas ruínas deveriam ter ressoado e vibrado com a passagem de grandes personagens em busca de glórias, riquezas e novas terras.
Agora, as ramificações da floresta alcançavam o pátio interno da magnífica igreja e começavam a cobrir as grandes pedras da fortaleza moura.
Ao retornar para a auto-estrada e para o moderno aeroporto de cromo e vidro, perguntava a si mesmo que ruínas e florestas esta civilização deixaria para trás e por quanto tempo sua memória permaneceria espalhada pelos campos e vales daquela terra.
De volta à sua janela, olhou mais uma vez para a folhagem alta do carvalho, que ondulava ao vento sul. A pequena casa branca, à sua sombra, parecia desabitada e deserta. Ali, um silêncio pesava sob a grande árvore e o relógio do tempo parecia ter parado por alguns segundos.
No caminho de volta para casa, encontrou grupos de turistas, que chegavam apressados e estacionavam à sombra para fotografar os jardins próximos e o grande lago ao longe. E logo partiam em seus carros, com mais pressa do que haviam chegado. Passavam velozes sob os galhos do carvalho e desapareciam na curva do alto da rua.
Para trás, próximo ao grande tronco centenário, ficavam latas vazias e garrafas de plástico.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial