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O Tao de Beijing

Por Sérgio Capparelli Antes de aterrissar em Beijing, o viajante ainda sente alguma sonolência de chineses em riquixás ou de tranças manchus, da Dinastia …

Por Sérgio Capparelli

Antes de aterrissar em Beijing, o viajante ainda sente alguma sonolência de chineses em riquixás ou de tranças manchus, da Dinastia Qin, construindo a Pacific Railway nos filmes norte-americanos. Mas basta pisar no aeroporto internacional para verificar que Beijing se tornou a mais igual entre as iguais

Quem fica na cidade durante mais tempo começa logo a sentir certos distúrbios. Como o som de uma música plangente de uma cítara, saindo das fissuras dos tijolos de uma velha casa, um vento que venta, mas que parece montado, no farfalhar agitado da paulônia tormentosa, nas lembranças ainda sem substância ou em mulheres ciclistas, protegendo os traços elegantes com um véu de neblina.

Poderia dar mais exemplos, mas esses são os mais conhecidos. De fato, disse recentemente o presidente do Conselho Municipal, Wang Zhao, é como se debaixo de uma fina camada de verniz global, uma outra Pequim vazasse da nervura das ruas, dos cílios fechados dos edifícios ou  de uma mulher vestindo camisola de seda vermelha, que passeia com salto agulha pela rua comercial mais importante da cidade.

Nesse sentido, Beijing aparece nas minúcias e não nos grandes cenários. Nos pequenos gestos e não nas grandes efusões. Num assobio e não na buzina.  No pão frito e não na Paris Baguette. Nas roupas prósperas da ópera e não no Armani falsificado.  No cumprimento de alguém que a gente nunca viu e não nas conversas no  Café Ocidente. No que se entrevê e não no que se .

Com mais tempo e acuidade, o viajante se dá conta de que essa Beijing submersa, esquiva, diluída, mostra-se em cada lugar, a qualquer hora e nos mínimos detalhes, mesmo invisível para a maioria. É difícil conseguir tirar desses pequenos detalhes uma grande abstração ou uma linha de pensamento. Porque esses acontecimentos são vagos, com leve indisposição para os registros oficiais. Eles aparecem nas conversas de fim de tarde, quando as calçadas se enchem de jogadores de Mahjong ou de veteranos criadores de pássaros que penduram sas gaiolas nas árvores para abafar o ruído dos pneus e dos guindastes.

Por outro lado, a civilização teve o cuidado de privilegiar o visual em relação ao auditivo, inclinando Beijing ao neon. Cascatas de luzes de todas as cores despencam do alto dos edifícios ou formam grandes arco-íris nas ruas mais movimentadas, como a Jianguomen, Chang”an ou Dongzhimen ou na área de bares e restaurantes de Sanlitun. É como se a noite quisesse romper as armadilhas do dia, cobrindo a cidade com 300 mil toneladas de areia de uma vez.

Alguns explicam, talvez seja a revanche da luz. Mas que luz, em situação de revanche, vai se anunciar dessa forma? Nenhuma, mesmo que se vista de música. Daí essa melodia, quase imperceptível, que vai estufando as pedras, estalando o concreto das garagens subterrâneas dos novos edifícios, mas, igualmente, de certos ritmos sonoros nas cerejeiras da Universidade de Beijing  ou o Angiostrongylus meningitis de 70 comensais, internados ontem às pressas no Hospital da Amizade, depois de comerem lesmas cruas amazonenses no restaurante Shuguo Yanyi. 

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