Extremamente irresponsável considero o comunicado do Festival Mundial de Publicidade de Gramado, feito esta semana, de que neste ano está transferindo a cidade-sede da Serra Gaúcha para São Paulo (SP).
Que realizem em São Paulo, Rio, Campos do Jordão, onde quiserem. Mas a justificativa dada, a dois meses do evento, é lamentável: “a decisão é preventiva e considera o cenário climático projetado para a Região Sul e o compromisso com a segurança de todas as pessoas envolvidas”.
Agora, além de enfrentar as mudanças climáticas — um fator que não é gaúcho, mas global —, temos de enfrentar o TERRORISMO CLIMÁTICO. A explicação faz parecer que o Sul está ou estará em calamidade. Não estamos. E fazer o público do Brasil inteiro pensar isso é um desserviço para o turismo e para os negócios. Imagina incentivar todos os eventos a cancelarem suas datas em Gramado! Imagina sinalizar para todos os turistas brasileiros que planejam ir à cidade que eles não estarão em segurança!
Não é o primeiro El Niño que temos — nos últimos 20 anos, foram sete. Nem o primeiro Super El Niño, eles acontecem com certa frequência. Nem mesmo a maior enchente que tivemos, em 2024, foi a primeira. Sim, as mudanças climáticas acirram os fenômenos, mas eles são globais e nada indica que temos de cancelar os eventos no Rio Grande do Sul. E nem em Santa Catarina, Paraná, São Paulo, todos os lugares de Sul a Norte do país ou do globo que enfrentam as transformações no clima. Estamos sujeitos a mais catástrofes, não apenas climáticas, mas elas não têm endereço, nem hora marcada.
Acredito que o motivo da saída de Gramado tenha sido outro, provavelmente econômico: trazer palestrantes e patrocinadores do eixo Rio-São Paulo é caro e difícil, envolve deslocamento e tempo de cada um — sei bem porque ajudo a realizar em Porto Alegre anualmente um evento de grande porte. Estive em uma edição do Festival de Publicidade de Gramado e testemunhei as dificuldades. As palestras foram de altíssimo nível, mas a estrutura, simples, e o público, basicamente de estudantes, com poucos decisores empresariais. Nada bom para patrocinadores.
Desejo todo sucesso do mundo ao evento, que tem nome, tradição, sempre foi muito bem-vindo e acolhido por aqui. Mas o motivo alegado para a decisão é uma mancha na reputação a ser enfrentada. Puro e irresponsável terrorismo climático!
Sebastião Ribeiro é jornalista, empresário e confundador da Amanita e da Cartola.


One Comment
Sabe que também me gerou desconforto esse comunicado. Foi precipitada a decisão.
A grande maioria dos eventos da comunicação e mídias já estão no centro do país. Já estamos naturalmente longe dessa centralidade e essa decisão reforça este lugar periférico.
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