Por Rafael Bordin Schuch
Foi lançado recentemente o excelente livro do jornalista Lira Neto sobre a mais importante figura política do Brasil no século 20: Getúlio Dornelles Vargas, aquele que saiu de São Borja, na fronteira com a Argentina, e, após passar pelo governo do Rio Grande do Sul, foi até o Rio de Janeiro em uma empreitada de vinte dias para começar um país que antes não existia. O lançamento de Neto (“Getúlio 1882-1930; dos anos de formação à conquista do poder”, Companhia das Letras) é o primeiro de três volumes que são imprescindíveis para o entendimento não só da política, mas também da sociedade brasileira, pois a história recente do Brasil passa em grande parte pela figura do ex-presidente. Getúlio teve entre seus feitos a implantação da CLT (código das leis trabalhistas) e criou, em seu segundo período na presidência, a Petrobrás (a qual hoje tantos tem orgulho mas nem sabem quando e como surgiu). Além disso, botou uma bandeira no Oiapoque, outra no Chuí e iniciou uma nação soberana que antes, pelo menos na prática, não era mais que um simplório território.
Getúlio foi, em grande parte, instruído intelectualmente na então Faculdade Livre de Direito da UFRGS, e através dos livros disponíveis na sua biblioteca tomou conhecimento sobre o processo de industrialização que aconteceu em outros países e que ainda não tinha nem chegado perto de ocorrer por aqui. Além disso, na faculdade trabalhava um professor com quem Getúlio conversava sobre o que tinha ocorrido “lá fora” e os motivos por que isso não ocorria no Brasil. Portanto, o início do desenvolvimento do país saiu das paredes históricas da faculdade de direito da Ufrgs.
Aliás, na esquina da rua Sarmento Leite com a Avenida João Pessoa também se formou bacharel em Direito, em 1939, um de seus herdeiros políticos que seria derrubado da presidência da República por um golpe militar. Outro herdeiro seu no trabalhismo estudou engenharia civil no prédio ao lado, chegando a ser governador do RS e, por duas vezes, do Rio de Janeiro, e só não chegou a disputar o segundo turno nas eleições presidenciais em 1989 por pequena diferença de votos. Se passasse, a probabilidade de assumir a presidência da República era muito alta. Esta única quadra forjou homens que em diferentes momentos do século passado comandaram a política brasileira, provando que, mesmo estando localizada na capital de um estado que fora desprezado por ser considerado periferia política, mostrou potencial para balançar os alicerces nacionais.
Getúlio não possuía ideologia, era um mistério, sendo difícil compreendê-lo. Não tinha partido, mas criou dois, um para os trabalhadores e outro para os patrões, assumindo a presidência de ambos. Em uma entrevista com o jornalista Samuel Wainer, na sua fazenda em São Borja, Getúlio, então senador, ao receber a pergunta de como estaria a situação política nacional, respondeu ironicamente que mal sabia das coisas, pois estava totalmente por fora, que o entrevistador sabia mais do que ele, arrancando gargalhadas do repórter.
No prédio pelo qual estudaram presidentes da República, o busto de Getúlio se localiza com o rosto virado para o portão de entrada, para a avenida João Pessoa, político que foi seu principal aliado na eleição de março de 1930. Seu assassinato disparou, em outubro, o movimento político-militar que faria de Getúlio o presidente e mudaria para sempre os rumos do país. Nos corredores da Faculdade de Direito da UFRGS pode ser percebido que entre todos os bustos ali devidamente identificados o único sem placa é o do “baixinho”. Precisaria?

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