Por Sérgio Capparelli O vice-presidente brasileiro José Alencar fez uma veio dia 19 a Shanghai, e a Pequim no dia 23, ficando hospedado no oeste da cidade, em uma casa de hóspedes oficiais. É um lugar muito tranquilo, com lagos, pontes arqueadas e mansões. Essas casas são ocupadas por visitantes ilustres e, nessas ocasiões, ostentam a bandeira do país de origem de seus ocupantes.
Há três dias, a bandeira do Brasil ainda drapejava na frente de uma das mansões, deixando nervosos os peixes coloridos do lago em frente. Pouco antes de entrar no carro que o levaria ao velho aeroporto, José Alencar falou comigo sobre os resultados da viagem, sobre os pontos negativos de uma política unilateral perseguida, hoje, por alguns países, e sobre salvaguardas brasileiras em relação a produtos chineses.
Ele foi, mineiramente, respondendo algumas questões, falando em unilateralismo sem citar os Estados Unidos e em salvaguardas sem citar a China. Só pareceu mais agitado quando o assunto foi sobre a televisão digital no Brasil.
O vale verde e risonho
Se voltarmos no tempo, quando era risonho o vale do governo dos trabalhadores, o presidente Lula falou do papel da televisão digital como um fator de democratização digital, prometendo correio eletrônico nos lares brasileiros através dos set-up box – caixa decodificadora que converte o sinal analógico em digital e não pelo computador. E falou mais: havia planos de abandonar os protocolos existentes de televisão digital (norte-americano, europeu e japonês) e criar junto com a China, a Índia e possivel mente Argentina e Rússia, um modelo diferente, que representasse essa porção do mundo em desenvolvimento.
Esse presumível plano de uma televisão com protocolos fora dos grandes eixos mundiais ressurgiu na semana passada em Shanghai, quando o secretário-executivo do Ministério da Cultura, Juca Ferreira, contou a novidade de uma proposta da China, para desenvolver, junto com a Rússia e a Índia, um protocolo de televisão digital próprio. “Brincadeira!”, diria Nin Hao, o papagaio de minha vizinha do térreo.
“Mas nada ainda foi decidido”, falou o vice-presidente. “Ainda estamos discutindo o modelo brasileiro de televisão digital. O Vice-presidente não avançou muito nesse assunto, as ruas centrais de Pequim estavam bloqueadas para a passagem da comitiva do Vice-presidente, atrasado na sua ida para o aeroporto, e sem tempo para desenvolver o tema.
Modelo chinês
Existe um modelo chinês, brasileiro, russo e indiano? Um modelo chinês, é certo, mas envolvendo esses países, pouco provável. E as afirmações do secretário Juca Ferreira sobre um plano conjunto servem mais como cortina de fumaça, sobre um ministro das Comunicações brasileiro que falou muito e fora de hora. Daí o nervosismo dos peixes, com as águas agitadas das decisões políticas.
O que existe de certo, em termos da China, é que esse país pretende ser o maior produtor e consumidor de receptores para a televisão digital em 2010, segundo fontes de uma exposição sobre radiodifusão internacional, iniciada agora em Beijing.
Em 2010, a China terá 80% do mercado global de set-up box. E em relação à produção global desses aparelhos – 100 milhões de unidades em 2005 – a empresa STMicroeletronics, o maior fornecedor de chips destes receptores no mundo, predisse na exposição que o consumo desses aparelhos crescerá no mundo inteiro e que 30% deles serão produzidos na China.
É devido a esses altos valores em jogo e a essa grande ambição geopolítica que o modelo digital de televisão brasileira entrou mais uma vez em banho-maria. E por esse mesmo motivo, o modelo chinês, que nunca entrou em banho-maria, começou a ferver. E por tudo isso os peixes do lago da casa de hóspedes pareciam particularmente nervosos.

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