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Os chineses choram

Por Sérgio Capparelli Você liga a televisão e espera. Mas sua novela não vem. Passa uma série policial, em que o representante do bem …

Por Sérgio Capparelli

Você liga a televisão e espera. Mas sua novela não vem. Passa uma série policial, em que o representante do bem está ferido. Muita gente consternada na delegacia de Beijing. Esperam notícias. E a notícia chega. O ferimento é grave e o do bem vai ser operado. Um suspiro. Um soluço. Uma lágrima rolando no rosto da policial discretamente apaixonada. Um choro abafado na sala ao lado. As pálpebras do chefe-de-polícia, até então silencioso, se enchem de tremeliques. Seu auxiliar perde-se num choro incontrolável. O chefe de polícia não se contém, chora ele também. Mas você não quer ver série policial lacrimosa. Você quer é a sua novela das oito!

Pronto, anunciaram a novela das oito. Pelo menos parece que anunciaram. Porque você ouve o locutor e compreende muito pouco. O que vai ser de Lüye e de seu grande amor, Liquiu? Depois de tanto tempo, tanta dor e tanto sentimento, ela pode sair de seu casamento de conveniência. Ela está livre agora. Casando-se com Liqiu, ela vai aceitar a filha dele como se fosse sua? É isso mesmo? Sim, parece que é. Coitada da Lüye. Sofreu tanto! Morava no interior, veio para a cidade grande tentar a vida. Não gosto nem de me lembrar dos primeiros capítulos!

se ela não serve de exemplo. Ela abandonou o marido quando viu que não tinha jeito. Ele era muito egoísta. Muito, mesmo! Implicante. Bateu nela. Todo marido chinês agora vai pensar duas vezes quando for egoísta e violento e quiser bater na sua mulher. Todas, mas todas mesmo, vão sair de casa. Além do mais, estão prometendo para os capítulos seguintes um marketing social tratando da Aids. Com essa campanha, a população vai ser educada sobre os perigos da transmissão dessa doença.

Vale a pena ver de novo? Melhor, então, mudar de canal. Talvez essa novela de Liu Che, – o imperador Wu, da Dinastia Han, há 2000 anos – seja a solução. Claro, o Mao Zedong disse uma vez que o poemaneve“, que esse imperador escreveu, não tinha graça literária. Mas o que importa? Mao Zedong está morto, apesar dos posters com sua imagem vendidos no metrô. Então você pensa assim: “ fazem novelas com personagens da dinastia Qing (1644-1911), tenho de aproveitar essa, da dinastia Han.” Ah, coisa boa, minha novela do imperador Wu!

, mas o que é aquilo? Essa novela tem um rating alto mas ainda não conseguiu superar o drama histórico intitulado “Yongzheng Court”, também dirigido por Hu. Mas o imperador Wu está dando um bom dinheiro. O canal de televisão que transmite o “Imperador Wu” ganhou muito mais de 15 milhões de dólares, com comerciais antes e no meio de cada capítulo.

Atenção, publicidade! Primeiro de um filme contra os japoneses. Os japoneses levando mulheres chinesas. Música ao longe. Corte. Publicidade para xampu. Ah, é o canal.17. Aparece agora um tipo intelectual na área de hóspedes de um siheyuandiversos grupos de casas construídas em torno de um pátio. Uma das empregadas está apaixonada pelo estranho, se logo!. Ela é muito bonita. Close nas brasas do fogão. Close no desejo. Inverno. E ela, proibida de levar comida para ele. Coitadinha! Então, close de uma panela de sopa. Repolho e batata. Graciosos novelos de fumaça. A heroína cria coragem. Veja, vai ela no seu belo vestido de antigamente, deixando para trás o primeiro pátio, passando para o segundo, interno, no rumo de seu desejo. Ela nem sabe que seu patrão à espera de tocaia. Ha, ha. Vai penar, coitadinha. Se eu pudesse, avisaria, mas um telespectador não tem o direito de interferir assim na realidade.

Um grito.

Novo comercial. Dessa vez é de pasta de dente. Em seguida, um remédio para emagrecer. Mostram um corpo de galinha gorda depenada, sem pescoço e pernas, que fica balofo a partir da animação. Aumenta, diminui, aumenta, diminui. Não, não, não é galinha, acho que é um estômago e intestinos, enche, esvazia, enche, esvazia, tome esse remédio, minha senhora, que não vai ficar assim, galinha gorda. Agora uma cena romântica. Árvore frondosa, avô de cabelos brancos, netinhos fazendo bolhas de sabão. Que romântico! Que bucólico! Que sentimental! Todos sorriem amarelo, porque estamos na China. E que amarelo bonito!

Para a sua boca, dentifrício Crest.

Então, você fica passando de novela em novela, porque agora sua novela das oito são todas as novelas juntas, inclusive parte do noticiário. Aquela hora sagrada em que todos os canais da capital e do interior interrompem suas transmissões para a hora do Brasil chinesa. Então as autoridades fizeram isso, fizeram aquilo, e a visita do chefe da oposição de Taiwan foi um sucesso, enquanto esses japoneses não se arrependem do que fizeram.

Ponto.

Novo capítulo.

Acho que vou dormir.

Boa Noite.

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