Por Tibério Vargas Ramos Nenhuma expressão é mais estúpida do que “tolerância zero”. Pais e filhos, marido e mulher, parceiros e namorados, chefes e funcionários, vendedores e clientes, médicos e doentes, açougueiros e poetas, religiosos e ateus, católicos e evangélicos, professores e alunos, jornalistas e público, políticos e eleitores, quem manda e quem obedece, qualquer um, não vai conseguir estabelecer uma relação de cumplicidade, entendimento ou colaboracionismo se não forem capazes de respeitar diferenças, superações, deficiências e idiossincrasias. Só os prepotentes, presunçosos, preconceituosos e fracos de espírito são intolerantes. Eles se mostram revisionistas, donos da verdade, vingativos e carrascos.
Os tiranos são protagonistas da história da humanidade. No século XI, durante quase 200 anos, as Cruzadas, empunhando a cruz e a espada, em sete expedições da Europa em direção à Terra Santa, na Palestina, se propunham a eliminar os hereges e pecadores da face da Terra em nome de Deus. Hitler dizimou milhões de judeus e negros durante o nazismo na busca da raça pura. Stalin primeiro cortou Trotski das fotos e depois mandou assassiná-lo do exílio, no México, em 1940. Pinochet prendeu milhares no Estádio Nacional do Chile, em Santiago, no início da ditadura, em 1973, após o bombardeio do Palácio
Quando os defensores do aborto ou da maconha promoverem manifestações, podem contar comigo. Irei com uma faixa exigindo a descriminalização da cerveja e do vinho. Ninguém quer cara cheia, mas sou contra o bico seco. Matar e roubar pode. Mas beber vinho com espaguete ou cerveja com bauru, em um eventual passeio de carro, nem pensar. Você se transforma em um perigoso assassino à solta pelas ruas, a atropelar velhinhas na calçada.
Quem corre perigosamente no trânsito, não respeita a sinalização, não dá sinais, é mal educado, quer passar por cima dos outros motoristas, das carroças e dos pedestres, o fará sóbrio ou bêbado. Questão de índole, educação e respeito humano. As pessoas civilizadas, ao ingerirem álcool, se tornarão ainda mais responsáveis, atenciosas, inteligentes e alegres. Dirigirão com cuidados redobrados ou passarão a direção. Simples bom senso.
Ao sair para a estrada, claro, nenhum motorista pode beber. A monotonia da viagem, a longa duração, a repetição de movimentos, é um convite à sonolência. Mas as principais causas dos acidentes são a irresponsabilidade, velocidade exagerada, ultrapassagens perigosas, pistas com defeito e sem sinalização apropriada. Além da hipocrisia dos
Fico imaginando o ministro Tarso Genro na sala de sua casa,
Vejo horrorizado muitas pessoas lembrarem da ditadura militar como uma época de maior segurança. Havia delações, prisões, torturas, mas também assaltos a banco e seqüestros. Era uma guerra entre eles. Para os demais, o pior era a sensação de que os anos de chumbo nunca terminariam. Mas mesmo o regime de força não utilizava a idéia da “tolerância zero”. Havia a “democracia dirigida”. Os opositores pacíficos ao regime podiam exercer a catarse de votar no MDB.
Também nos deixavam beber. Às vezes entrava no bar uma patrulha do Exército à procura de subversivos. Era madrugada e os militares queriam mais passar o tempo. Vinha a ordem para todos afastar as pernas e colocar as mãos na parede. Após revistados, deveríamos nos identificar. Se o nome não estivesse na lista, tudo bem. Continuávamos na cerveja e depois voltávamos para o apartamento do BNH
A “democracia dirigida” da ditadura militar deu lugar à “democracia stalinista” de hoje. A sensação de impotência é a mesma daquela época. Por isso, já decidi. Quando me aposentar, vou me exilar no Uruguai. Assim poderei comer ovelha e tomar vinho tinto, sem me preocupar em ser politicamente correto. Voltarei para casa tranqüilo e sereno no meu jipe. Enquanto o tempo não chega, continuo com as pernas afastadas e as mãos na parede.

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