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Os intolerantes

Por Tibério Vargas Ramos Nenhuma expressão é mais estúpida do que “tolerância zero”. Pais e filhos, marido e mulher, parceiros e namorados, chefes e …

Por Tibério Vargas Ramos

Nenhuma expressão é mais estúpida do que “tolerância zero”. Pais e filhos, marido e mulher, parceiros e namorados, chefes e funcionários, vendedores e clientes, médicos e doentes, açougueiros e poetas, religiosos e ateus, católicos e evangélicos, professores e alunos, jornalistas e público, políticos e eleitores, quem manda e quem obedece, qualquer um, não vai conseguir estabelecer uma relação de cumplicidade, entendimento ou colaboracionismo se não forem capazes de respeitar diferenças, superações, deficiências e idiossincrasias. Só os prepotentes, presunçosos, preconceituosos e fracos de espírito são intolerantes. Eles se mostram revisionistas, donos da verdade, vingativos e carrascos.

Os tiranos são protagonistas da história da humanidade. No século XI, durante quase 200 anos, as Cruzadas, empunhando a cruz e a espada, em sete expedições da Europa em direção à Terra Santa, na Palestina, se propunham a eliminar os hereges e pecadores da face da Terra em nome de Deus. Hitler dizimou milhões de judeus e negros durante o nazismo na busca da raça pura. Stalin primeiro cortou Trotski das fotos e depois mandou assassiná-lo do exílio, no México, em 1940. Pinochet prendeu milhares no Estádio Nacional do Chile, em Santiago, no início da ditadura, em 1973, após o bombardeio do Palácio La Moneda e a morte do presidente Salvador Allende. Fidel Castro continuou mandando para o paredão ativistas políticos e fugitivos do regime cubano até o início do século XXI. A “revolução permanente” durou tanto tempo que o escritor português Saramago, simpatizante do comunismo, um dia exclamou: “Até aqui eu fui”. Guevara havia desembarcado muito antes, na década de 60, em nome da utopia que o matou na Bolívia.

Quando os defensores do aborto ou da maconha promoverem manifestações, podem contar comigo. Irei com uma faixa exigindo a descriminalização da cerveja e do vinho. Ninguém quer cara cheia, mas sou contra o bico seco. Matar e roubar pode. Mas beber vinho com espaguete ou cerveja com bauru, em um eventual passeio de carro, nem pensar. Você se transforma em um perigoso assassino à solta pelas ruas, a atropelar velhinhas na calçada.

Quem corre perigosamente no trânsito, não respeita a sinalização, não dá sinais, é mal educado, quer passar por cima dos outros motoristas, das carroças e dos pedestres, o fará sóbrio ou bêbado. Questão de índole, educação e respeito humano. As pessoas civilizadas, ao ingerirem álcool, se tornarão ainda mais responsáveis, atenciosas, inteligentes e alegres. Dirigirão com cuidados redobrados ou passarão a direção. Simples bom senso.

Ao sair para a estrada, claro, nenhum motorista pode beber. A monotonia da viagem, a longa duração, a repetição de movimentos, é um convite à sonolência. Mas as principais causas dos acidentes são a irresponsabilidade, velocidade exagerada, ultrapassagens perigosas, pistas com defeito e sem sinalização apropriada. Além da hipocrisia dos 80 km por hora. Se você obedece, dorme na direção e acorda em outro plano.

Fico imaginando o ministro Tarso Genro na sala de sua casa, em Porto Alegre, no fim de semana. O fogo crepitando às suas costas, na lareira, e ele de pala boliviano, a ler clássicos e a folhear reproduções de obras de arte, em busca de inspiração. Como será batizada a nova operação da Polícia Federal? Rodin, o pensador de pedra? Ou seria melhor representada pelo indiano Satiagraha, o paciente silencioso? Nenhuma serve como metáfora de uma ação policial. Mas pouco importa a semiótica. Valem a idéia, o significado do termo, a viagem intelectual. Se Sua Excelência quiser dar uma volta, o motorista está lá na frente, no frio, à sua disposição, encolhido no carro oficial.

Vejo horrorizado muitas pessoas lembrarem da ditadura militar como uma época de maior segurança. Havia delações, prisões, torturas, mas também assaltos a banco e seqüestros. Era uma guerra entre eles. Para os demais, o pior era a sensação de que os anos de chumbo nunca terminariam. Mas mesmo o regime de força não utilizava a idéia da “tolerância zero”. Havia a “democracia dirigida”. Os opositores pacíficos ao regime podiam exercer a catarse de votar no MDB.

Também nos deixavam beber. Às vezes entrava no bar uma patrulha do Exército à procura de subversivos. Era madrugada e os militares queriam mais passar o tempo. Vinha a ordem para todos afastar as pernas e colocar as mãos na parede. Após revistados, deveríamos nos identificar. Se o nome não estivesse na lista, tudo bem. Continuávamos na cerveja e depois voltávamos para o apartamento do BNH em um Fuca pé-de-boi comprado em 36 vezes.

A “democracia dirigida” da ditadura militar deu lugar à “democracia stalinista” de hoje. A sensação de impotência é a mesma daquela época. Por isso, já decidi. Quando me aposentar, vou me exilar no Uruguai. Assim poderei comer ovelha e tomar vinho tinto, sem me preocupar em ser politicamente correto. Voltarei para casa tranqüilo e sereno no meu jipe. Enquanto o tempo não chega, continuo com as pernas afastadas e as mãos na parede.

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