Por Julio Sampaio Alguém já disse que é arriscado fazer previsões, sobretudo sobre o futuro. Mais importante do que fazer previsões, que na maioria das vezes parecem inúteis, é tentar identificar algumas tendências que podem fazer diferença nas decisões no presente. Um dos aspectos que mais impacto provocará no negócio de mídia é a disposição do consumidor de não pagar pela informação. Aqui parece existir um paradoxo. Em um mundo em que cada vez mais a informação é imprescindível, ela se torna cada vez mais commoditie, pelo avanço tecnológico que democratiza a produção, a distribuição e o acesso à informação.
A maioria das tentativas de cobrança de conteúdo de jornais e revistas na internet não trouxe bons resultados. Há um excesso de oferta, e somente aquele tipo de informação exclusiva e percebida como de grande valor tem alguma chance de ser cobrada. A restrição ao acesso livre na internet é um caminho adotado por alguns veículos, como meio de preservar a venda que ainda ocorre na versão impressa. Parece lógico, pois, por que alguém pagaria por uma leitura que poderia ser obtida gratuitamente? Alguns leitores pagariam, por hábito, praticidade ou por preferência, mas outros não, e isto poderia afetar o já combalido desempenho de circulação dos veículos impressos.
É possível que após uma fase de ajustes do mercado, esta distorção desapareça, mas, ao contrário, pode também se acentuar. Ou seja, aquilo que já ocorre no mundo digital pode se estender ao mundo físico, e a maioria dos consumidores decidir não pagar por informação, como pelo jornal do dia, por exemplo.
Isto seria o fim dos jornais? Certamente que não, mas seria o fim do modelo de negócio tradicional dos jornais, sustentado pelas receitas de circulação e de publicidade. De comum, restaria a importância do conteúdo editorial e do conceito da marca do jornal. Também estaria preservada, e talvez ainda mais valorizada, a importância do relacionamento entre o jornal e seus leitores. Estes deveriam conhecê-los com profundidade ainda maior, quanto a hábitos, valores, comportamento e demais informações, que os ajudassem a fazer um produto mais dirigido e mais poderoso para os seus anunciantes. Neste sentido, a segmentação que apenas se inicia no mundo dos jornais, tende a ser mais aplicada, transformando-se de uma diferenciação por classes, para um caráter mais comportamental.
Neste cenário, de modelo alternativo, o jornal gratuito poderia passar a ser hegemônico. A disputa continuaria a acontecer nos campos da audiência (conteúdo e distribuição) e na venda de publicidade, ambos influenciados diretamente pela força de suas marcas. No entanto, teríamos um tipo de jornal mais leve, textos curtos, maior uso de imagens, fotos e infográficos, atendendo a um leitor com menos tempo disponível, e que poderia ter na versão digital a possibilidade de busca complementar, para um tema de maior interesse.
Pode ser que isto não ocorra de imediato, mas é difícil prever com que velocidade se dará. É preciso que os jornais se preparem imediatamente para este mundo diferente, em que será necessário um novo modelo de negócio. Conteúdo, marca, relacionamento com os seus leitores, expertise em distribuição e, sobretudo, inteligência comercial são ativos de maior valor do que nunca.

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