Artigos

Os novos paradigmas – O caso ICL

De Iraguassu Farias, para Coletiva.net

Em tempos de incredulidade com novos movimentos disruptivos, algumas transformações chocam. A mim, certamente.

Depois de 56 anos, CazéTV nos apresenta uma realidade: a Globo NÃO vai transmitir a semifinal entre França e Espanha.

Como assim? É…algumas coisas que pareciam impossíveis já deixaram de sê-lo.

Outra coisa que parece impossível, é sustentar um negócio sem receita adequada, sem venda, sem mercado que o sustente.

Sempre achei bacana o modelo do ICL: sem monetização de big techs, sem publicidade comercial. Dinheiro entrando apendas das inscrições em cursos que produzem e distribuem. Daí o nome: Instituto Conhecimento Lilberta.

Nem nos pensamentos de jornalistas utópicos, de pensadores progressistas, de filósofos da educação, esta possibilidade era cogitada. Nem no alcance que o ICL atingiu. Nas manhãs, entre 8h e 9h30, atingiam mais de 30 mil pessoas conectadas simultaneamente – no YouTube, e assumiram larga vantagem sobre o segundo colocado no horário.

Hoje dão conta da saída do Leandro Demori. Alegada reorganização financeira. Eu não duvido. Lembro de muitas vezes pensar: “Este modelo não vai se sustentar. Não tem como”.

Às mesmas mentes progressistas, não capitalistas, antibigtechs sempre pareceu um modelo interessante. Não à monetização. Não à publicidade comercial. Não à publicidade estatal. Não aos bancos. E blá, blá, blá.

A contrapartida: o modelo é frágil economicamente. Pode não se sustentar.

E depois de obter muito sucesso editorial – não sei se o mesmo nos cursos e na sua viabilidade econômica, a conta chegou. E chegou não fechando. E quando isto acontece, tem de se cortar custos. Nada a ver com capitalismo, mas com a gênese da mercancia. Sem receita adequada, tem de reduzir despesas. E o argumento da manhã de que demitindo os maiores salários evitaria demissões em massa, tampouco se sustenta (e aqui também não há novidade). Uma fonte respeitadíssima acaba de me informar que mais 10 demissões da área de jornalismo do ICL ocorreram no dia de hoje. Como vemos, capitalismo (necessário) nas veias.

O problema que eu vejo é o paradoxo de querer sobreviver no ambiente digital, num YouTube, por exemplo, renegando exatamente a razão pelo o qual ele existe, que é a de remunerar a audiência. Mais ou menos como querer muito ter audiência grande, mas não querer viver dela. Estranho.

Ora, é da essência do negócio, em especial na área da comunicação, a geração de receita exatamente em cima desta audiência.

O sonho, a utopia de ser independente a partir da negação da publicidade como geração de caixa, não parece ser tarefa simples. Diria que é quase impossível.

Fala-se em este jornalista gerar muitas e onerosas ações na justiça contra o ICL. Fala-se em cortar salários mais altos em detrimento de demissões em massa. Com o tempo saberemos. Mas não importa. O fundamento é um só: tem de ter faturamento.

O outro paradoxo – e que causa uma certa confusão conceitual, é a alegada por Eduardo Moreira de que há muitos custos com a publicidade no Google, na Meta, para promover seus cursos. Como é que é? Sou independente no jornalismo e por conta disto não aceito monetização, mas invisto grande parte da receita dos cursos promovendo-os exatamente nas bigtechs?

Enfim, é só mesmo uma reflexão sobre o modelo adotado e suas consequências. E a conclusão de que a Utopia, é apenas uma utopia.

Iraguassu Farias é diretor comercial de Coletiva.net.

Compartilhar:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.