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Os reféns do Wikileaks

Por Alberto Dines Alguns desdobramentos da façanha comandada por Julian Assange parecem consensuais, inquestionáveis: ** A responsabilidade pelo megavazamento é daqueles que não souberam &#

Por Alberto Dines

Alguns desdobramentos da façanha comandada por Julian Assange parecem consensuais, inquestionáveis:

** A responsabilidade pelo megavazamento é daqueles que não souberam manter a proteção aos documentos secretos do Departamento de Estado.

** A prisão do wiki-militante Assange não pode ser considerada como represália do governo americano até que a Justiça sueca termine as investigações sobre as supostas agressões sexuais que teria cometido contra duas jovens. A Suécia é uma democracia exemplar, santuário dos direitos humanos há mais de meio século. Até prova em contrário. Colocar esta imagem sob suspeição é, no mínimo, leviandade.

O que causa espécie e muito espanto é o comportamento dos cinco veículos jornalísticos globais (The New York Times, El País, Le Monde, The Guardian e Der Spiegel) que ingenuamente acataram as imposições do Wikileaks sem atentar para a sua autonomia e independência – sua soberania, em outras palavras. Não avaliaram que seriam reféns de um negócio imprevisível com um parceiro mais imprevisível ainda.

Um jornal ou revista sério e responsável não faz acordo com as fontes. A fonte – no caso o Wikileaks – pode até fazer exigências para garantir a sua segurança, mas não pode impor suas vontades no tocante ao aproveitamento do material que oferece.

Os Cinco Grandes aceitaram a exigência de dar prioridade às suas edições online quando todos, sem exceção, enfrentam sérios declínios de circulação em suas edições impressas. Caíram na armadilha de um ciberativista mais preocupado com a sua empreitada política do que com o futuro do jornalismo impresso. Sem esta subserviência a um audacioso franco-atirador da blogosfera (cujos reais desígnios não se conhecem), o material vazado seria processado e disponibilizado dentro de paradigmas jornalísticos mais adultos e competentes.

Tem mais: a fonte não pode impor um pacote fechado na base do “ou leva tudo ou nada”. Ao submeter-se a este tipo de chantagem o jornal ou jornalista perde a sua importância, entrega-se ao sequestrador da sua imagem. Este é o ponto: apesar das louváveis façanhas anteriores, o Wikileaks não tem envergadura nem credibilidade para bancar sozinho a divulgação desses documentos. Com medo de que o pacote fosse oferecido aos respectivos concorrentes, os Cinco Grandes apressaram-se em fazer o acordo sem dar-se conta dos riscos que corriam num momento em que o público global começa a gostar deste maravilhoso e insuperável jogo de observar a mídia.

Exercício crítico

Milagros Perez Oliva, a valente e impecável ombudsman (“Defensora del Lector”) do diário espanhol El País, na edição de domingo (12/12) procurou explicar aos seus leitores – alguns até irritados – as razões que levaram o jornal a aderir ao pacto com o Wikileaks. Convocou o próprio diretor do jornal, Xavier Moreno, a responder aos questionamentos.

No parágrafo final do texto intitulado significativamente “O tsumani Wikileaks” a Defensora do Leitor reconhece que:

“…ficou clara a necessidade de uma jornalismo responsável e rigoroso. Neste mundo complexo e acelerado não basta ter acesso ao material em bruto. Este material requer o trabalho de jornalistas bem formados, capazes de contrastar, contextualizar e valorizar, a partir da experiência profissional, os dados e as versões.”

Para compensar a crítica indireta ao jornal, um finale épico:

“O que cria desconfiança não é a revelação, mas o que foi revelado.”

Clube seleto

A Folha de S.Paulo, eterna adolescente, continua insistindo em apresentar-se como um dos Sete Grandes. Segundo o El País de domingo (12) são apenas cinco. O Globo, que também pegou carona no meio da travessia, tem sido mais discreto. Por prudência ou tédio, o Estado de S.Paulo ficou fora desta maratona. Por enquanto está no lucro.

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