Por J. A. Moraes de Oliveira Meu pai fazia parte de um grupo de remadores, formado por uma curiosa e divertida fraternidade de descendentes de imigrantes germânicos e italianos. Todos dedicados chefes de família e que trabalhavam duro a semana inteira, nos escritórios de navegação e importação do centro da cidade, mas que reservavam os domingos e as horas de folgas às suas paixões – óperas e regatas.
Aos domingos, eles se reuniam muito cedo, na raia dos Navegantes. E, pontualmente às 7h, lançavam seus barcos à água e disparavam como flechas pelas águas calmas do Guaíba até a ponta do Gasômetro. Quem dava a largada era o veterano timoneiro Carlo Becker, conhecido como “Comodoro” e que conhecia as regras do remo como ninguém.
Aquela disputa entre os dois outriggers já durava anos, cada lado enumerando o número de troféus e taças conquistadas, mas ninguém sabia ao certo quem acumulava mais vitórias nas regatas oficiais. Um grupo era formado exclusivamente por remadores alemães, o “Ruder Verein”, e o outro, única e apenas por remadores com sangue italiano – o “Canottieri Duca degli Abruzzi”.
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Mas, se havia juiz de largada, não havia um juiz na chegada, e todos os domingos surgia a mesma questão – quem havia chegado na frente? Os dois barcos ficavam flutando no meio do rio, os remadores trocando amáveis insultos e reivindicando vitória. A discussão só acalmava quando alguém propunha uma revanche, no percurso de volta aos Navegantes, para decidir quem eram os mais velozes.
Mas, desta vez, valendo uma rodada de chopp e schnaps.
Não importava quem ganhasse o tira-teima, os oriundi e os tedeschi se reuniam novamente no final da tarde do dia seguinte, ao redor de uma mesa no bar Lilliput. Riam e discutiam como adolescentes, até que alguém mencionava o programa de ópera da Rádio Belgrano da noite anterior.
Então o tom mudava e a discussão se polarizava, dessa vez com os “verdianos” defendendo a excelência da ópera em italiano, enquanto os “wagnerianos” proclamavam a supremacia da ópera em alemão.
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Uma vez por mês, o grupo se reunia na casa do “Comodoro” Carlo Becker, para jantar e ouvir ópera na moderna Victrola RCA do anfitrião. Que mesmo com ascendência parte bávara e parte piemontesa, não escondia suas predileções, sempre encontrando um jeito de rodar os discos de sua soprano favorita, Amelita Galli-Curci.
As divergências sobre qual o melhor tenor ou a melhor soprano cessavam por encanto quando era aberto um barrilete de chopp, enviado pela Cervejaria Bopp, e chegavam à mesa fumegantes pratos de tagliatelli alla carbonara. Em uma determinada reunião, o grupo se alvoroçou com a nova temporada lírica do Teatro Colón, que prometia a presença de estrelas como Lily Pons, Beniamino Gigli, Renata Tebaldi e Tito Schipa.
E o resto da noitada foi gasta em uma discussão sobre como viajariam até Buenos Aires – de auto ou de vapore?
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A viagem nunca aconteceu, pois o grupo foi surpreendido pela morte de Carlo Becker, fulminado por um ataque de coração. O acabrunhado grupo tentou prestar uma homenagem no velório do amigo, tocando Amelita Galli-Curci, na Victrola RCA do falecido.
No entanto, o vigário da Igreja da Glória foi intransigente e vetou os planos do grupo. Como vendetta, eles convidaram uma notória cantante da noite de Porto Alegre, para cantar no enterro, mas a argentina se recusou participar da molecagem.
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Anos mais tarde, meu pai lembraria que, naquela tarde, o Lilliput abriu as portas mais cedo, para que o grupo pudesse afogar as tristezas em chopp e schnaps.
E que eles instruíram o garção para que, a cada rodada, renovasse os copos diante da cadeira vazia do remador morto.

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