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Palavra ou sigla?

Por Antônio Goulart Vou entrar na vereda aberta pelo Jayme Copstein em sua última coluna, quando indagou dos leitores o significado da palavra “cincada”. …

Por Antônio Goulart

Vou entrar na vereda aberta pelo Jayme Copstein em sua última coluna, quando indagou dos leitores o significado da palavra “cincada”. Também vou colocar na mesa o meu desafio. Talvez mais singelo e mais fácil.

Quem sabe o que quer dizer “imba”? Adianto que se trata mesmo de palavra dicionarizada, embora tenha toda a aparência se sigla. Na verdade, ela também existe como tal.

O Google nos apresenta IMBA como “International Mountain Bicycling Association”. Aqui, entre nós, poderia igualmente funcionar como abreviatura de algum “Instituto da Mulher Baiana”, por exemplo, ou – por que não? – de “Imprensa Baixo Astral”. O que, diante dos últimos acontecimentos, realmente faz sentido.

Quem já foi menino, no tempo em que se jogava bolinha de gude, sabe o que é imba. Todo mundo falava a palavra durante a brincadeira, pelo menos na minha turma, no pátio da escolinha rural que freqüentei nas bandas de Vacaria. Confesso que fui um péssimo jogador. Invejava o jeito e a pontaria precisa dos guris que conseguiam colocar a bolinha no alvo certo, no imba: o pequeno buraco feito no chão. Alguns também o chamam de “boco”. 

Nem sei se a criançada de hoje, diante da overdose de passatempos eletrônicos à disposição, acha graça em se ajoelhar no chão e brincar com pequenas esferas de vidro. Se é que ainda existe chão, já que o asfalto está por todo lugar. Por fim: alguém sabe a origem etimológica da palavra imba? Eu não sei.

Para seguir o roteiro e aproveitando as “cincadas” de escritores apontadas pelo Copstein, de minha parte também coleciono algumas, digamos, “imbadas”, isto é: caídas no buraco, de certos escribas ilustres.

No romance “O Colar da Rainha”, de Alexandre Dumas (pai), encontramos esta passagem: “Ah! Ah!, disse ele em português.” Em outro ponto, escreveu: “Sua mão estava fria como a de uma serpente.” O mesmo autor, em “Os Três Mosqueteiros”, registrou esta façanha: “Estive uma hora sem respirar.”  Não é sem razão que esta é a obra de maior fôlego de Dumas…

Ponson du Terrail é tido como o grande “dorminhoco” entre os romancistas franceses. São dele estas pérolas: “O velhote aparentava 75 anos, mas contava pelo menos o dobro dessa idade.” – “Ele passeava pelo jardim, com as mãos nas costas, lendo tranqüilamente o jornal.” – “A marquesa ia finalmente se explicar, quando a porta, abrindo-se, fechou-lhe a boca.”

Emil Zola também nos deixou esta: “Vamo-nos, disse Peter, procurando seu guarda-chuva para secar as lágrimas.”

Em “Dramas Íntimos”, de Gascon Lerroux, lê-se: “A tripulação do navio tragado pelas ondas constava de vinte e cinco homens, que deixaram centenas de viúvas condenadas à miséria.”

Feuillet, em “O Favorito da Sorte”, assim se expressou: “O cadáver esperava, silencioso, sua condução.” O romancista alemão Auerbach expôs um verdadeiro problema com esta frase: “Com um olho lia; com o outro escrevia.” E o grande Victor Hugo, na novela “Bug-Jargal”, deixou esta: “O chefe do departamento cruzou os braços e tirou o chapéu respeitosamente.”

Na 1ª. edição do romance “Flor de Sangue”, do brasileiro Valentim Magalhães (1859-1903), saiu esta errata: “Onde se lê ´deu um tiro nos miolos´, leia-se: ´cortou as artérias´.” Com certeza, quis amenizar o impacto da violência.

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