Por J. A. Moraes de Oliveira O dono da tenda das argolas fez um gesto, impondo silêncio à pequena platéia que se amontoava, curiosa e incrédula. Fiquei intimidado com tantas pessoas ao redor. Aquilo não parecia a Festa do Divino, mas um jogo de futebol em uma tarde de domingo no campo da várzea da Ramiro com a Oswaldo Aranha. Enxuguei a mão na calça e fechei os olhos.
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“Meu caro Cama,
O baú abriu turbinado. Há um desencontro de gerações, mas algo incrível aconteceu. A herdeira do Jayme Brilman, cuja esposa era Esther, que ficou com o apartamento onde moraste e foi vendido ao teu pai, era a minha mãe. Ela sim chamada Rosa.
Biiiingo!
Sou contemporâneo do teu cunhado Isi, que não me trata por Léo e sim por apelido, e obviamente conheço tua irmã. O nome da tua mãe traz à memória todas as “gurias” da minha zona, que aprendiam violão com ela e nos obrigavam a aturar a insuportável Palmeeeeeeeeeeiras à beira mar. A Dona Celininha era um sucesso. As alunas, nossas paixões.
Das pessoas que citaste, alguns eu conheci. Sou de 48 e minha geração é mais moça. O cônsul do Chile (Coudeau?), sogro do Sepé, tinha um carrão Hudson e lembro da tua geração sentada no muro da casa dele. A Vila Russa eu lembro, e os moradores eram ucranianos. Havia um riacho no meio e cruzava-se por uma ponte que era um tronco. Lá eu vi uma caminhonete de cubeiros recolhendo os cubos.
Vocês sabem o que é isso?
A Vila Africana era a Alcides Cruz, rua do Força e Luz, onde o bonde entrava em dia de jogo. Vi o Larri jogando lá. Na João Guimarães, tinha o Bar Timbaúva, onde havia um time e cantores ocasionais.
Grandes histórias. A minha irmã estudava no Instituto e foi colega de aula da Elis Regina, que estudava lá em casa. A Vera Susana, irmã do Cadete, era sósia da Elis, eu era amigo do irmão menor, o Toninho. A Vera, só sei que era irmã do Telmo. O Lívio e a Terezinha eu conheci. O Bernardo Acebesteu era o irmão da Léa, que só conheci de fama e com outro apelido: “Maquinista olhando a paisagem”. O ed. Leon era onde morava o seu Leon Cutin, pai do meu tio Isaac Cutin, que morava na Santa Cecília. A maioria das pessoas que mencionaste, não conheci. Alguns por referência ou de vista. O Júlio Teixeira era amigo do meu pai. A Tanira devia ser irmã do Quido. O Aurélio Garcia acho que é o Guaraná. O IPA ficava no Morro da Guampa e todos temiam os ferozes cachorros da Casturina, que morava na pedreira. Essa foi boa, hein?
Eu ia para o Julinho de carona com o Mário Cesar, Cururu, cujo pai, dr. Togo, tinha um Mercury Azul e morava na Juvenal. Da minha geração há uma porção de nomes e parte dos episódios estão num livro que editei em 1995, chamado O Sapato do Pirata. O texto que envolve o Timbaúva é deste livro. Acho que a sessão saudade foi forte e pode estar afastando os demais leitores. Com desculpas pelo excesso.” (Léo Iolovitch, Advogado)
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Me imaginei chutando uma falta máxima no último minuto de uma partida decisiva. O gol-keeper do outro lado era aquele guri sardento da Felipe Camarão, que tentava namorar a loura da Ramiro Barcelos.
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“Prezados participantes desta seleta confraria:
Embora tenha nascido em 1961, fui bastante precoce na profissão, tendo começado na Standard em 1979 e, no ano seguinte, na MPM (lembras, Cotta?). Conheço quase todo este grupo tão qualificado, a maioria pessoalmente. O certo, porém, é que, de todos os participantes, já ouvi e/ou presenciei lances geniais, sacadas brilhantes e, principalmente, exemplos de conhecimento, ética, talento e companheirismo.
É, vocês são muito mais do que aparentam escrevendo, pois essa simplicidade no tratar do prosaico e das coisas comezinhas é mais uma prova de inteligência, sensibilidade, cultura e, no máximo, de uma saudável pontinha de vaidade compartilhada com seres afins, porque, afinal, ora… com a média que temos hoje, somos diferenciados, não é mesmo ? (Mas não espalhem!)
Ou seja, mesmo não parecendo isso, tento humildemente me inscrever como participante no grupo, já que, desde a primeira mensagem desta série, tenho me divertido muito, aprendido bastante e, principalmente, ouvido falar de pessoas que vocês conviveram como adolescentes, enquanto eu era criança, aqui em Porto Alegre e com alguns anos de Rio de Janeiro… E decidi fazer isso porque pensei muito em vocês há pouco, no Santander Cultural, assistindo a um show de lavar a alma d’Os Cariocas, cantando Bossa Nova – aquilo tudo que presenciei com meu pai, no Bar Veloso, na esquina da Montenegro (hoje Vinicius) com Prudente de Morais (esse Morais é com “i”, Moraes…), quando o Poetinha já estava pra lá de Bagdá e o Tom chegava pra começar sua série de chopps…
Lá, meu pai me pedia, por ser criança, que eu fosse até a mesa deles pedir-lhes autógrafos para vários amigos(as) dele daqui do Sul, que deliravam quando nós lhes enviávamos essas autênticas peças das gincanas colegiais de hoje. Bem, é isso. Desculpem pelo texto tão longo.” (Dado Schneider, Publicitário)
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Os aplausos e gritos me fizeram abrir os olhos. Sem acreditar, olhei e vi as três argolas enfiadas na garrafa mais alta. O dono da tenda se aproximou e me entregou a prenda. Era uma enorme e colorida lata de goiabada Peixe. Olhei ao redor para saborear minha vitória, mas todos já haviam debandado. Não sobrara ninguém.
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“Cama, Leo, Dado et alii,
Nessa manhã serrana de verão com dez graus no termômetro e a chuva caindo (mansa mas firme) lá fora, fico pensando no que fazer com a inglesa que devo buscar no hotel daqui a pouco; explico: ela só me disse – pelo skype – que estava querendo escapar do frio e da chuva londrinos e cavalgar dez dias na paisagem que o site da Campofora mostrava e nos cavalos crioulos que conhecera uma vez no Chile (um dia depois, desembarcou na rodoviária de Canela e esqueceu o chapéu no bagageiro do ônibus, só me ligando do hotel para pedir que tentasse resgatá-lo, antes de desabar na cama). Desvio o olho do LCD para o tucano-de-bico-verde que “fagoteia” num galho de açoita-cavalo, a dez metros de minha janela.
Papo de louco? Só pra dizer que me impressionou a riqueza das lembranças da turma do Caminho do Meio e confessar que, sim, cinco ou dez anos na idade ou, mais definitivo ainda, a distância de pouco mais de dois quilômetros que separavam a Independência da João Guimarães, fazem uma diferença enorme na “cidade mental” de cada um.
Sou de 1953, nasci no Moinhos de Vento e desci duas quadras da Gonçalo de Carvalho pra enterrar o umbigo e viver por ali, jogando pelada na calçada do muro da Brahma, e descer de carrinho-de-lomba a Pinheiro Machado, por 43 anos (as peladas e o carrinho não foram tão longe), mas comecei a trabalhar aos 9 anos (meio “às brincas”- lembram dessa? – é verdade), como cobrador de meu avô dos carnês das parcelas de terrenos comprados de um loteamento ao lado do Veraneio Hampel, em São Francisco de Paula – circulava de bonde pelos quatro cantos dessa Porto Alegre cheia de segredos desvendados somente pelas vizinhanças! (que será isso?).
É isso: a vizinhança, essa dos segredos, parece que não existe mais, fechados que estão todos atrás de suas cercas elétricas, mas ao mesmo tempo, vamos nos achando, de olho no LCD, instantaneamente conectados com Londres e São Paulo a um mesmo tempo, demonstrando que nossa capacidade de lembrança com certeza não cabe em nenhum pen-drive – no meu caso, no passo tranqüilo e certo de um crioulo, com o qual percorro hoje uns 40 km por dia, a campo fora (sem calçada, sem rua, sem trilho de bonde, longe da lógica urbana e da dificuldade que já era, em meados do século passado, ir ao matinê do Cine Rio Branco ao invés do Ipiranga ou do Vogue obrigatórios de todo domingo – quem sabe não era pelo peso da pilha de gibis debaixo do braço?). Abraço cinchado.” (Paulo Hafner, criador de Cavalos)
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Subi apressado a Ramiro Barcelos, agarrando com as duas mãos a lata de goiabada. Na esquina da Vasco da Gama, parei para recuperar o fôlego e espiei por sobre o muro. Mas as luzes na janela do quarto da Ingrid estavam todas apagadas.
Desci a rua e entrei em casa. Coloquei a prenda em cima da mesa e esperei a mãe chegar.

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