Em outubro, o ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica despediu-se do Senado aos 85 anos, para cuidar da saúde e porque, apesar de encantado com a política, diz que ainda se encanta mais com a vida.
Tem um verso da música ‘Tá Combinado’, do Caetano Veloso, que diz: “Abrirmos a cabeça/ para que afinal floresça/ o mais que humano em nós”. E a humanidade é para onde todos nós – que temos essa oportunidade e privilégio – deveríamos olhar nessa pandemia.
Quando a pandemia começou, eu tive a oportunidade de cambiar um pouco mais de vida. Já morava com 11 amigos há dois anos e levávamos um estilo mais coletivo de viver. Em abril, mudei para o sítio da comunidade Osho Rachana, no Cantagalo, interior de Viamão, com outros 20 amigos. Aqui, já viviam outros 80 amigos, incluindo 10 crianças.
A comunidade é a casa da maioria dos terapeutas do Namastê, o centro de meditações ativas e terapia bioenergética, que existe em Porto Alegre há 23 anos e que eu frequento há cinco. As meditações ativas são práticas criadas pelo Osho que trabalham com movimento e expressão das emoções, para que as pessoas usem o corpo – e não só a cabeça – para meditar. A bioenergética é, na prática, um conjunto de exercícios sincronizados com a respiração, que ajudam a desbloquear a energia da vida, movendo tensões físicas e emocionais guardadas na memória do corpo.
Com o trabalho presencial interrompido, muitas pessoas de fora de Porto Alegre, Rio de Janeiro e Portugal (onde estão os outros centros do Namastê no Brasil e no mundo) tiveram acesso ao trabalho desenvolvido por meio do curso ‘Como aumentar seu tesão agora’, das lives sobre sexualidade e das escolas online de meditação, com aulas em português e inglês, estas últimas em especial para moradores dos Estados Unidos e da Europa.
ZH, RBS TV e Revista Época já retrataram a rotina de isolamento e o modo de vida da comunidade nessa pandemia, do funcionamento da nossa organização coletiva de vida, da forma como nos relacionamos e dos cuidados que adotamos para viver quase em uma bolha desde março.
Muitas outras pessoas têm se interessado pelo nosso modo de viver – esse artigo é o resultado de um desses interesses. Meu novo amigo Iraguassu Farias, responsável pelo Comercial do Coletiva.net, fez o convite para eu escrever esse texto depois de virar meu cliente no Pão na Porta, que é o projeto da comunidade de venda de pães e panetones de fermentação natural, hortaliças sem veneno, produção coletiva e sustentável. O Pão já existia antes da quarentena, mas foi reformulado pra virar uma das fontes de renda da comunidade neste momento, já que o Namastê está fechado e a maior parte da sustentabilidade do sítio vinha do trabalho desenvolvido lá.
O sítio foi comprado por um grupo de amigos, em 1991, liderados pelo Prem Milan, que é um gringo lá de Garibaldi e terapeuta de bioenergética há mais de 30 anos. O motivo inicial da compra do sítio era ter um lugar pra meditar, namorar, jogar futebol, realizar trabalhos terapêuticos, conviver, curtir os amigos e exercer a humanidade de fato.
Nesse momento de pandemia, duvido que alguém não tenha pensado sobre a falta que faz estar distante das pessoas, não poder encostar, abraçar ou estar em um espaço mais livre, no meio da natureza.
Desde sempre, o convívio entre as pessoas é o que mais importa na comunidade, inaugurada oficialmente em 2004. Um lugar onde vivem juntos os amigos, sabe? Direto daqueles sonhos infantis e adolescentes, onde tu moras com os melhores amigos. Temos atritos, brigas, por óbvio, mas temos relações reais, em que as pessoas admitem e falam o que sentem umas pelas outras, seja raiva, inveja, tesão ou muito amor.
Quem vive e já viveu aqui sabe que é um modelo único de vida, raramente visto em qualquer outro lugar do mundo. É um lugar de muito crescimento, criatividade, abundância, alegria, momentos memoráveis e experiências inesquecíveis. Me toca muito a forma como a gente se apoia aqui, torce realmente um pelo outro, exige que o outro seja um ser humano melhor, não aceita o pouco das pessoas.
Muita gente pôde sentir um pouco disso a partir das ações do ano passado, quando rodávamos a cidade em um caminhão, vestidos com os macacões da “Casa de Papel”, entregando um manifesto pelo resgate do pulsar do coração, do amor e da sexualidade. Muita gente também já assistiu aos grandiosos espetáculos da Gincana Namastê, uma gincana que acontece todo dezembro há 16 anos, com a criação de músicas, peças de teatro, apresentações de dança, jogos emocionantes de futebol e vôlei, e outras brincadeiras típicas de gincanas.
Muita gente também conhece a Agenda Namastê, uma criação do coletivo de artistas da comunidade. Uma publicação criativa, questionadora, rebelde e que todo ano homenageia personagens inspiradoras e traz o conteúdo e a verdade que acreditamos e vivemos por aqui. No ano passado, o Mujica era um dos homenageados e ganhou um exemplar da agenda Namastê, entregue pessoalmente, durante a viagem de três terapeutas e moradoras do sítio ao Uruguai.
Mujica saiu da política por seguir encantado com a vida e querer, aos 85 anos, seguir vivendo. Não é a primeira vez que Pepe faz essas declarações. Seu modo de viver simples, com seu Fusquinha, sem esquecer suas origens e depois de tudo o que viveu (assista o filme ‘Uma noite de 12 anos’!) segue nos inspirando por aqui. Nos inspira porque defende uma mudança na sociedade não só pelas relações trabalhistas, mas sim pelas relações humanas, por menos consumo e pelo resgate do tempo perdido atrás de dinheiro.
Diz Mujica: “É preciso viver, é preciso amar, é preciso ser feliz, precisa-se de tempo para viver amar e ser feliz. Ninguém compra cinco anos de vida no supermercado”. Aquele sonho de 1991, de Milan e seus amigos, concretiza-se ainda mais nessa pandemia com as noites enluaradas, os banhos de lago, as meditações, o pôr do sol, as estrelas cadentes, os vagalumes, os papos na sauna, as criações coletivas, a amizade e mais tempo para colocarmos em prática essa reflexão e o resgate da humanidade.
Jornalista, ex-editora digital de ZH, Pioneiro e Hora de Santa Catarina, ex-assessora de comunicação na Assembleia Legislativa.

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