Faz perto de 30 anos que tenho algum tipo de envolvimento com eventos. Na maioria das vezes, sou apresentadora, mediadora ou mestre de cerimônias, como preferem alguns. Desde sempre, teve algo que me inquietou nestes trabalhos. A presença predominante, quando não exclusiva, de homens brancos entre os palestrantes. Em alguns setores corporativos, a situação é crônica e, até parece, autoexplicativa. A direção da empresa ou da instituição realizadora também é composta por… homens brancos. Então, no momento solene da abertura, acontece o previsível. Aquele enfileirado de engravatados olhando para a bandeira e cantando o Hino Nacional. Só a apresentadora para salvar a condição de um palco 100% masculino. Ainda em 2019, apresentei o lançamento de uma Fundação na área ambiental onde todos os integrantes da diretoria são, veja só, homens. Foi há bem pouco tempo, meses antes da pandemia jogar todos nós no mundo das lives e dos eventos online.
É certo que as coisas têm mudado, e o olhar de mulheres competentes que lideram empresas organizadoras tem nisso uma contribuição inestimável. Acontece que, às vezes, a organização é toda interna e, no final das contas, quem bate o martelo é o próprio dono. Diversificar os palestrantes precisa começar com uma curadoria atenta, o olhar dos anfitriões aberto para isso na hora de fechar a programação e decidir para quem será dado o microfone. Aqui me rendo ao exemplo do TEDx, um movimento mundial, realizado em mais de 130 países, que leva para o palco temas merecedores de serem compartilhados. Cada convidado faz uma palestra chamada “talk”, de até 18 minutos, com alguma ideia inspiradora. Todas elas são gravadas e disponibilizadas na web. Os TEDs tem uma mistura linda de palestrantes em idade, sexo, cor e origem social. Do líder comunitário ao alto executivo de uma multinacional, há espaço para a fala de quem faz algo significativo, com potencial de transformar outras realidades. Para organizar um TEDx, é necessário tornar-se uma licenciada ou um licenciado. É o que faz a gaúcha Ana Goelzer, speaker coach com mais de 20 anos de experiência em Comunicação. Ela é curadora e organizadora do TEDxLaçador realizado desde 2010, em Porto Alegre.
“É o mínimo que posso fazer, acho inaceitável que, ainda em 2021, a gente se depare com lineups de grandes eventos com pouca diversidade”, diz Ana, referindo-se ao perfil dos seus próprios convidados. No trabalho voluntário, ela dedica um olhar apurado para reunir no palco a representatividade do Brasil, contemplando cada vez mais vozes negras e femininas. Já estiveram no TEDxLaçador a apresentadora Bela Gil, o jornalista Manoel Soares, a psicóloga e ialorixá Ìyá Sandrali de Oxum. Outros nomes foram a educadora Esther Grossi, a líder comunitária do Complexo do Alemão, no Rio, Mariluce Mariá Souza, o rabino Nilton Bonder e o físico Marcelo Glaiser. Desde o ano passado, esta multiplicidade de depoimentos acontece de forma virtual, mas sempre amplificando boas histórias.
O último evento de 2020 reuniu 17 palestrantes. Nesse grupo, eram 13 mulheres, sete pessoas negras e uma indígena. O TEDxLaçador acontece há 11 anos, estive em várias edições e a próxima será neste 22 de junho. Desta vez, com o teólogo e pastor Henrique Vieira, que combate o fundamentalismo religioso no Brasil; a advogada Izabel Belloc, mestre em Gênero e Políticas de Igualdade; o ativista Rene Silva, editor-chefe do jornal Voz das Comunidades, no Complexo do Alemão; a psicóloga Luciane Slomka, entusiasta das temáticas sobre a finitude; a estudante Maytê Andrade, criadora de um sistema de inclusão para cegos; a militante Ernestina dos Santos Pereira, que integra o Conselho Nacional das Trabalhadoras Domésticas do Brasil; e o educador Lucas Moraes, que faz da música um elemento de mudança. A maioria mulheres, a maioria negros e pardos em mais uma provocativa reunião com alguns estreantes em talks.
Claro que os eventos corporativos buscam experts em determinado assunto, e isso leva a profissionais que tiveram acesso a graduação, mestrados, doutorados e processos que contratam os mais qualificados. Esta caminhada ainda é seletiva no Brasil, sabemos. Por outro lado, é certo que eventos com propósito como o TEDxLaçador mostram o quanto é necessário e positivo mesclar os talentos que falam. Se somos um país com 52% de mulheres e 57% de negros e pardos, nada mais justo do que as vozes ouvidas também serem plurais. Até porque diversidade significa muito mais do que a necessária representatividade social. Vai além da pauta dos costumes que promove a igualdade, significando liberdade para assumir percepções, sentimentos e visões de mundo.
Num mesmo encontro, ter perspectivas variadas é libertador. E ser livre para pensar e agir gera um círculo virtuoso: dá asas para a criatividade, que traz ousadia, que traz inovação, que traz melhores resultados. Ao fim e ao cabo, é também uma questão de inteligência econômica. Não ao acaso, os manuais de gestão indicam a combinação de iniciantes com experientes profissionais na equipe. Juntar as vivências e misturá-las é uma forma de amalgamar o que de melhor uma empresa pode querer, que é a sua perenidade. A fórmula funciona também para os eventos. Eles são efêmeros, mas conseguem deixar mensagens consistentes e transformadoras, sabe-se lá, eternas.
As inscrições para o TEDxLaçador no dia 22 de junho são gratuitas. Acesse aqui.
Daniela Sallet é jornalista e apresentadora de eventos.


*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial