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Por que nenhuma agência gaúcha tem conta federal?

Por Ricardo Hoffmann * Ao telefone, Airton Rocha – o bravo presidente eleito da ARP. Os estreitos laços de amizade que mantenho com Roberto …

Por Ricardo Hoffmann *

Ao telefone, Airton Rocha – o bravo presidente eleito da ARP. Os estreitos laços de amizade que mantenho com Roberto Franchini me aproximaram de Airton, ambos foram sócios na Martins,Andrade. Ele fala de suas idéias a frente da entidade e revela – imagino eu – o maior dos seus desafios: resgatar o prestígio e recuperar o espaço das agências gaúchas junto ao segmento de contas públicas federais.

Brasília é o segundo mercado anunciante do País: algo em torno de R$ 1 bilhão. As versões oficiais nunca ultrapassam os R$ 350 milhões das verbas publicitárias da administração direta. Mas o número a ser considerado deveria incluir rubricas de patrocínio, promoção e marketing das estatais, inclusive aquelas sediadas no Rio de Janeiro, pois a decisão é homologada no Palácio do Planalto.

Sem rodeios, Airton me pergunta: por quê nenhuma agência gaúcha tem conta federal? E insiste: por acaso as agências mineiras são melhores do que as nossas? Bem informado, continua: é possível aceitar que uma agência da Paraíba, um mercado menos evoluído, possa ser mais competente do que a gente?

Responder simplesmente “não sei” é, no mínimo, uma atitude que não combina com o meu jeito sincero de ser. “Prefiro ficar vermelho na hora do que amarelo pro resto da vida”, como costumava dizer Roberto Justus, meu ex-chefe na Fischer Justus e depois na NewcommBates – hoje Young & Rubican Brasil.

A verdade é que não há uma resposta objetiva a esta pertinente e oportuna pergunta. Sem me esquivar ou buscar subterfúgio, proponho ao amigo uma breve reflexão, talvez assim consigamos juntos desvendar tal enigma. Pergunto eu:

1. As agências gaúchas seriam capazes de se unir diante de um projeto maior? Uma união estratégica e de fato, e não apenas no discurso. Onde empresas concorrentes fossem capazes de se ajudarem mutuamente.

2. E os nossos políticos também seriam capazes de se engajar em uma ação comum? Superando suas diferenças partidárias. Erguendo suas vozes em favor de um setor econômico específico de seu estado.

É claro que Airton respondeu afirmativamente a ambas questões. Quem sou eu, então, para discordar. Não só porque estou distante do mercado e da realidade do meu Rio Grande natal, como também por ser bem menos experiente do que o prezado presidente da ARP. Mas, com todo respeito, vale seguir na reflexão.

Sérgio Amaral, diplomata de carreira e experimentado negociador – integrou a equipe que fechou aquele histórico acordo do Brasil com o FMI – quando esteve à frente da Secretaria de Comunicação, no Governo FHC, costumava afirmar: é mais fácil sentar à mesa com as arqui-rivais Brahma e Antarctica, em plena guerra das cervejas, do que botar duas agências a trabalhar numa mesma campanha.

Não há como reconhecer verdade irrefutável nesta conclusão do embaixador. Nem a perspectiva de ganho financeiro é suficiente para amainar o tão imenso ego publicitário. O nosso individualismo, a nossa auto-suficiência, a não rara petulância são, lamentavelmente, marcas registradas da nossa profissão – as exceções, claro, servem apenas para justificar a regra.

De qualquer forma, esta é uma característica da classe e não exclusividade nossa. Talvez o tempo seja capaz de mudar esta realidade. Forte aliado nesta direção é a elogiável disposição de luta da ARP, ao eleger como uma de suas bandeiras o fortalecimento das agências gaúchas no plano nacional.

Pelo menos, então, podemos contar com a nossa representação política? Afinal, o Rio Grande nunca esteve tão presente no Governo Federal como hoje. São quatro ministros, inúmeros assessores, secretários de ministérios, dirigentes de órgãos, diretores de instituições. Só mesmo São Paulo se faz mais presente do que nós.

Não, definitivamente tamanha força política ainda não foi suficiente para reverter a situação. Ah, agora enfim está respondido: a culpa é dos políticos. Claro. Eles não se mexem. Não gritam. Você acha mesmo que um senador gaúcho seria capaz de trocar o seu voto por uma conta publicitária?

Tudo bem, ótimo que os nossos parlamentares não se submetam à barganha tão rasteira. Mas e daí? O que fazer, pois diz-se que há quem barganhe? No mínimo, denunciar. Protestar. Ou, simplesmente, silenciar. E deixar tudo como está. Isto é: continuar sem contas federais. Sem reclamar!

Ah, que me desculpem os eventuais leitores que me acompanharam até aqui. Esqueci de dizer que a ligação telefônica caiu a pelo três parágrafos atrás. Na verdade, eu derrubei a linha, pois não tenho o direito de constranger o sempre educado e elegante Airton com essas minhas opiniões politicamente incorretas.

Ta bom, mas, de novo, e daí? Este artigo não tem conclusão? Nenhum alento? Pior: nenhuma perspectiva? Vamos continuar sem contas federais? É, acho que sim! Pelo menos, enquanto não nos unirmos de verdade. Pelo menos, enquanto acharmos que não podemos reivindicar em nome de empresas privadas do nosso estado. E, por fim, pelo menos, enquanto não mais dos que uma, duas ou, no máximo, três agências gaúchas estiverem participando das licitações em Brasília. Antes de tudo, para ganhar, é imprescindível participar.

* Ricardo Hoffmann, publicitário, vive há 10 anos no Distrito Federal, como empresário na área de comunicação social.

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