Por Jair Alberti
A História não é feita apenas de fatos e personagens, mas também de relatos e versões de seus principais momentos, através das vozes de cidadãos comuns, especialistas e personalidades. Somam-se a eles os jornalistas e demais profissionais da Comunicação. Curiosos. Inquietos. Incansáveis na tarefa de transmitir novidades que despertem interesse e possuam relevância. Esta sintonia permanente exige disposição para ouvir todos os lados da notícia, objetividade para ir direto ao assunto, clareza para que todos entendam e experiência para aprender com os próprios erros e acertos. Pressupõe, ainda, uma combinação de dinamismo e responsabilidade que assegure a divulgação de informações confiáveis e, sempre que possível, antecipadas. O resultado é uma relação de fidelidade com o público, em um dia-a-dia no qual ambos precisam estar bem informados sobre tópicos que abrangem desde a previsão do tempo até os impactos climáticos globais.
Assim tem sido a atuação da Rádio Guaíba desde as suas primeiras transmissões, em abril de 1957, quando os discursos inaugurais dos diretores Breno Caldas e Aberto Pasqualini chegaram a milhares de ouvintes, ultrapassando as fronteiras do Rio Grande do Sul. As mensagens irradiadas pelo prefixo ZYU-58 já evidenciavam a opção da emissora por uma programação de qualidade em jornalismo, serviços e entretenimento. O povo gaúcho ganhava mais uma voz ativa em defesa de seus interesses, com excelência técnica, bom-gosto e respeito ao ouvinte.
A trajetória percorrida pela Rádio Guaíba ao longo destas cinco décadas inclui episódios memoráveis nos quais a emissora se fez presente para reportar em primeira-mão e apurar seus desdobramentos. Deixaram marcas na história da imprensa brasileira, por exemplo, as transmissões radiofônicas das Copas do Mundo, a começar pela edição de 1958, quando a Guaíba foi à única emissora presente na Suécia. Não menos fundamentais foram as coberturas de momentos como a construção de Brasília, renúncia de Jânio Quadros, movimento da Legalidade, Universíade de Porto Alegre, assassinato de John Kennedy, Golpe Militar de 64, Guerra do Vietnã e desembarque do homem na Lua. A perda traumática do colega Pedro Carneiro Pereira em acidente no autódromo de Tarumã, o incêndio da Loja Renner, a visita do papa João Paulo II a Porto Alegre, o movimento Diretas-Já, o retorno da Democracia ao Brasil, a morte de Tancredo Neves, a Assembléia Constituinte de 1988, a execução de Chico Mendes.
E como esquecer a queda do Muro de Berlim, o confronto entre Brigada Militar e colonos sem-terra na Praça da Matriz, o impeachment do presidente Collor, a perda de Ayrton Senna e a rebelião do Presídio Central? Ou, ainda, os títulos mundiais da dupla Gre-Nal, o Fórum Social Mundial em Porto Alegre, os atentados de Onze de Setembro nos Estados Unidos, as Feiras de Hannover na Alemanha, as denúncias de Mensalão, a crise aérea brasileira e tantos outros fatos que transcendem a condição de mera notícia. E pelas ruas em todos os quadrantes existia uma afirmação, “se deu na Guaíba, então é verdade”.
O mesmo padrão de qualidade se estendeu à Guaíba FM (101.3 MHz), que desde fevereiro de 1980 conquistou diversos perfis de ouvintes e se consolidou como referência no segmento radiofônico, por conta de sua programação diferenciada, prezando principalmente por música de qualidade e informação com credibilidade. Foi levado para o FM, o que até então se ouvia no AM “Na Música da Guaíba”, principalmente.
Desde março de 2007 sob administração do Grupo Record, a Rádio Guaíba passou por inovações em todos os seus setores. Além da contratação de profissionais e da realização de reformas em suas infra-estruturas física e tecnológica. Esse processo tem alcançado formatos e conteúdos, com novos programas e modelos diferenciados de gestão, produção e operação sintonizados com o que há de mais moderno em âmbito mundial, comprometendo totalmente a tradição que sempre foi uma da marcas registradas da Guaíba AM e da Guaíba FM.
Ressalta-se também o Estúdio Cristal, verdadeira janela para o cruzamento da Rua da Praia com a Caldas Júnior, não por acaso denominada oficialmente de “Esquina da Comunicação”. Ali, diariamente, a população TEVE a oportunidade de conferir de perto algumas das principais atrações políticas, culturais e esportivas apresentadas pelo único veículo de rádio localizado no Centro de Porto Alegre. Interatividade, aliás, é palavra-chave nesse conceito. Recursos como telefone e internet permitem que o público passe de condição de mero espectador para a de participante ativo, enviando críticas, comentários e sugestões de pauta. E é amparado neste pensamento que estou escrevendo.
Por conta desse perfil que conquistou gerações de fãs, muitos deles situados fora dos limites Rio Grande do Sul, como é o meu caso, ou mesmo fora do País, a Rádio Guaíba também é notícia. Pelo que fez, recebe, proporciona e significa. Se você ainda é um “Guaibeiro”, trata-se apenas de uma questão de tempo. Se continuar assim, amanhã ou depois você não mais será.
No dia em que a nossa “Velha Guaíba”, completava seus 53 anos, deram o tiro de “misericórdia”. Acabaram de vez com o que foi construído nessa longa e belíssima caminhada. Tirar do ar o “Correspondente Renner”, porque é assim que nós o conhecíamos, mesmo tendo outro patrocinador, é no mínimo uma idéia não inteligente. Nesse mesmo dia, deveriam ter mudado o nome da rádio; alterado seu perfil; buscado outros profissionais e terem comunicado a todos nós “guaibeiros” que a partir deste dia nós estávamos órfãos de uma das mais belas histórias construídas na comunicação mundial.
Tirar do ar o Correspondente Renner é, para o “Guaibeiro”, o mesmo que tirar o Cristo Redentor do Rio de Janeiro; implodir o Vaticano e a Praça de São Pedro; derrubar a Torre Eiffel; derrubar e botar fogo na Floresta Amazônica; etc… Quando diminuíram sua duração para cinco minutos, e mudaram o horário das 20h para as 23h, depois para as 21h, começaram a destruir uma tradição construída por tantos grandes profissionais desde os tempos de Alberto Pasqualini e que certamente tem muito mais valor que meia dúzia de tostões furados, que podem ser ganhos com a venda de espaços comerciais nestes 40 minutos diários, que era o que o nosso velho Renner tinha.
Se a intenção da Rede Record é colocar em Porto Alegre uma rádio popular, com perfil semelhante ao da Farroupilha, deveria ter adquirido uma destas rádios que estão minguando diariamente por pequenos patrocínios para poderem se manter no ar. Certamente o resultado no final das contas seria muito mais lucrativo, já que é só isso que se analisa nos dias de hoje.
Apesar de não ser gaúcho, sempre admirei muito o apego que este povo tem por suas tradições. O exemplo disso são os milhares de CTGs espalhados por este mundão de Deus afora. Ouvir a Rádio Guaíba e ler o Correio do Povo sempre foi para o gaúcho algo parecido com vestir-se de bombacha e bota, andar a cavalo, laçar, participar de carreiradas, bailantas, gaitaços, entre outras tradições que sempre foram tão difundidas na conhecida Estância de São Pedro. Quem sabe foi na televisão Guaíba o grande desafio da velha Caldas Junior. Esta nunca chegou a ter a mesma tradição do Correio do Povo e da Rádio Guaíba; as próprias Folha da Manhã e Folha da Tarde tiveram um sucesso muito maior que o projeto TV Guaíba Canal 2, como era conhecida.
A visão empreendedora da Rede Record não se discute. O canal 2 de Porto Alegre realmente foi uma grande aquisição e a imediata mudança de nome foi um acerto, porque esta era conhecida apenas na grande Porto Alegre. Já não tenho a mesma opinião com relação ao Correio do Povo e à Rádio Guaíba.
Como estes são (eram?) conhecidos nacionalmente, deveriam ter seu perfil mantido, usando sua tradição e credibilidade, para alavancar a audiência da televisão. Com relação a um jornal mais popular, deveriam “ressuscitar” um dos títulos da velha Caldas Júnior, como a Folha da Manhã e Folha da Tarde.
Espero não ter ofendido ninguém, sou ex-radialista-jornalista com pouco mais de 20 anos de profissão (rádio e jornal) e sempre pautei meu trabalho e minha linha editorial no Manual de Redação da velha Caldas Júnior. Sou assinante do Correio do Povo há mais de 25 anos e leitor há quase 40. Ainda sou meio “guaibeiro”, já fui bem mais.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial