Nesta quarta-feira (4), faz um mês que o fenômeno El Niño e suas consequências trágicas estão na pauta dos gaúchos. O período mais chuvoso por aqui desde o início do século passado deixou um saldo de pelo menos 50 mortos, oito desaparecidos, cidades destruídas e incertezas para muita gente. O baque econômico e social é imenso e levará anos para ser resolvido.
A chuva acima da média ainda vai longe e a sociedade precisa tirar lições do que viveu em setembro. O mês reescreveu a história climática do RS. O governo estadual felizmente já reconheceu que precisa melhorar seu sistema de Defesa Civil e a operação da Sala de Situação e muitas prefeituras estão reavaliando seus planos de monitoramento e de contingência. O setor privado também aparenta estar mais atento ao assunto, o que é bom.
Mas e a imprensa no meio disso tudo? Onde acertamos e onde erramos? A discussão é longa, mas um ponto em especial merece ser examinado com urgência. Está claro que precisamos falar mais e melhor sobre o tempo e como chegar, de forma clara e objetiva, a todos os públicos. Somos parte fundamental desta engrenagem de avisos e alertas em tempos de fenômenos climáticos extremos. O SMS da Defesa Civil e as redes sociais do Estado e das prefeituras são insuficientes para, dependendo da necessidade, mobilizar uma região inteira.
Previsão do tempo não é brincadeira, não é quadro de humor e precisa ir muito além dos modelos numéricos que os smartphones nos entregam de forma cada vez mais interessante. O jornalismo precisa informar o básico, mas também deve ir além: explicar, analisar, traduzir, contextualizar. E, sim, combater a desinformação.
Quer um exemplo? A chuvarada que provocou a tragédia no Vale do Taquari não foi provocada por um ciclone, ao contrário do que disseram jornalistas e órgãos de governo. A informação é da MetSul Meteorologia, chancelada pela coordenação do 8º Distrito do Inmet. Especialistas em previsão do tempo e em Defesa Civil sabem que, quando falamos em ciclone, a população se preocupa mais com vento do que com chuva. E o problema do início de setembro não era o vento, mas sim a chuva. Um alerta mais claro e efetivo poderia ter diminuído a tragédia? Nunca saberemos.
Em junho, depois – aí sim – do ciclone que atingiu a faixa leste do Estado, a experiente meteorologista Estael Sias publicou um texto no Correio do Povo chamando atenção para a necessidade de melhorarmos a comunicação com o público. Desde os alertas, que chegam por SMS em texto padrão e somente para quem se cadastrou junto ao Estado, até o noticiário mesmo. É preciso mais conhecimento, mais tempo e mais espaço para o assunto no dia a dia.
É hora de olharmos seriamente para a implantação de uma cultura meteorológica e de prevenção no Estado. E isso passa pelos governos, pela imprensa e, sim, pelo mercado anunciante. Patrocinar espaços de previsão do tempo, incentivar a contratação de serviços especializados, sobretudo por médias e pequenas empresas de mídia, é um passo fundamental. Entidades de classe ligadas ao jornalismo e às universidades também podem contribuir para a qualificação das redações.
Aqui no Grupo Sinos, que cobre desde a Grande Porto Alegre e Litoral Norte até a região das Hortênsias, levamos o assunto muito a sério. Tempo é uma pauta permanente há décadas. Os ciclones de junho e julho e a enchente de setembro nos ensinaram um pouco mais. Estamos reavaliando processos e discutindo melhorias a serem implantadas. A próxima tragédia climática virá, isso é certo. Quanto mais preparados estivermos, melhor para a sociedade.
Igor Müller é diretor de conteúdo do Grupo Sinos


*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial