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Profissão: contar histórias

Por Karla Pimentel Um dos motivos que me moveram a escolher a profissão de jornalista foi a possibilidade de contar histórias. Reais, histórias de …

Por Karla Pimentel

Um dos motivos que me moveram a escolher a profissão de jornalista foi a possibilidade de contar histórias. Reais, histórias de gente, que mexem com as pessoas, que influenciam o nosso cotidiano. Sejam elas sobre saúde, educação, política, economia ou cultura. Essas histórias podem ter final feliz, triste, trágico, emocionante… Ou podem, simplesmente, não ter final.

Ainda estudante do segundo grau (atual ensino médio), eu utilizava diariamente o metrô paulistano para ir do colégio para casa. Sempre na mesma hora, a mesma linha. Todos os dias eu encontrava dois senhores idosos, que se sentavam frente-a-frente, mas em lados opostos do vagão. Era divertidíssimo! Pois adoravam comentar, em alto e bom som, as roupas, sapatos e penteados dos demais passageiros.

– Olha, mas olha bem o cabelo daquela moça! Parece um ninho de passarinho!

E apontavam em direção à “vítima”! E riam, riam muito. Claro que todos olhavam para o penteado da moça. Alguns ficavam constrangidos, outros disfarçavam, a maioria se esforçava para conter o riso.

– O que é isso?! O homem tem coragem de usar um sapato dessa cor?!

Essa “indiscrição” era diária e não poupava o escolhido (a). Após o comentário e as risadas, os dois velhinhos continuavam conversando normalmente sobre assuntos diversos, como se nada tivesse acontecido. Aos berros, um de cada lado do vagão. Quem pegava o trem cotidianamente naquele horário, devia morrer de medo de ser o próximo alvo. Eu, pelo menos, congelava de pavor.

Os meus encontros com esses dois senhores indiscretos foram muitos, aconteceram por muitos meses. Até que um dia, entrei no trem e apenas um deles estava no vagão. Quieto, encolhido, cabisbaixo. “Onde está o outro?” – pensei lá com meus cadernos e apostilas. Fiquei observando até que o olhar dele cruzou com o meu. Não saberia decifrá-lo. Sofrimento? Preocupação? Saudade? Solidão? Talvez sim, talvez não, talvez tudo isso e muito mais.

Tive vontade de me aproximar e perguntar pelo companheiro dele. Afinal, me sentia até íntima daqueles dois. Não fui. Nem no dia seguinte e nem no outro, nunca mais encontrei a divertida dupla. Até hoje, passados todos esses anos, já imaginei dezenas de finais para esta história. Provavelmente nenhum tão bom quanto o real. Porque a realidade é a verdade das pessoas e esta é sempre muito interessante. Como jornalista, ainda acredito nisso. E só peço poder continuar contando histórias sobre gente e sobre os fatos que mexem com a vida das pessoas.

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