Por David Nóbrega
Carrego o adjetivo de mal-humorado. Dizem que meus comentários são ácidos demais e nada politicamente corretos. Assumo. Não é minha intenção ser nenhuma metamorfose ambulante.
Mas existem aqueles que me conhecem melhor e sabem que isso é carapaça. No fundo – bem lá no fundo – sou gente boa.
Os parágrafos acima foram escritos à guisa de apresentação. Somos quase íntimos agora. Para melhorar nosso relacionamento, gostaria de colocar algumas posições que assumo perante determinados fatos da vida.
Por exemplo, acredito piamente que o bicho homem está-se transformando mais em bicho que homem. E não digo isso pela criminalidade, pela violência, pelas drogas ou pela corrupção endêmica que democraticamente só vemos nos políticos, mas não em nossos cotidianos. Quem nunca xerocou uma receita de bolo usando a máquina do escritório que trabalha, ficou com o troco errado que a desatenta caixa do supermercado lhe entregou ou tentou subornar alguém, que atire a primeira pedra!
Quando digo que o ser humano está deixando cair a peteca da civilidade, é porque meu foco é a cultura, de um modo geral. Sendo escritor e editor, tenho uma queda maior pela literatura, mas acredito ser impossível dissociar uma forma de arte de outra. Um povo sem cultura é um povo sem memória e sem bons exemplos para construir novas ideias e reciclar conceitos.
Vejam por exemplo o caso da música que pode, dependendo do autor, ser considerada poesia musicada. Tínhamos há poucos anos uma MPB forte, com vozes únicas e sempre presentes nos programas de rádio, embalando amores e contando dissabores. A nossa música popular, que já foi instrumento de protesto ou de alienação durante a ditadura militar, acabou. Certo, concordo com o eleitor horrorizado; acabar, acabar, não acabou, mas está fora da mídia.
Em entrevista recente para a Revista Cultural de nossa editora, conversei com Hyldon, famoso na década de 70 com sucessos como “Na rua, na chuva, na fazenda” sobre esse ponto, e ele foi categórico: gravadoras que antes financiavam o jabá das rádios, e atuaram o prato-feito do way of life americano para nossos receptores hoje estão quebradas. As rádios ficaram então órfãs de financiamento e de novos talentos populares. Assim, o que se ouve hoje são aqueles que possuem alguma forma patrocínio e não os músicos que têm algo real a nos contar. Esses últimos ficam relegados aos botecos e outras boas casas do ramo.
Outro exemplo de decadência artística? Instalações. Ninguém sabe o que aquilo quer dizer e é impossível, ao menos para mim, formar um conceito próprio e deixar a arte fluir, como gostam de dizer os expoentes de tais artes. Muitas dessas “representações artísticas” que tenho visto por aí se parecem muito com coisas lá de casa. “Olha ai, querida… Não jogamos fora aquelas caixas de ovo ontem mesmo?”. Vanguarda não é reunir recicláveis, mas criar algo agradável ou instigante ao olhar.
Exatamente como as formas de arte acima, podemos encaixar exemplos na pintura, no teatro e até mesmo no cinema, que por depender dos tais financiamentos (em grande parte de empresas estatais) acaba por meter os pés pelas mãos. Mas nenhuma forma de arte hoje em dia é tão desvalorizada como a literatura. Chegamos ao ponto em que a poesia, a prima-rica e garbosa da escrita, tornou-se um amontoado de futilidades espalhadas ao vento através principalmente da internet, onde todo mundo se acha de alguma maneira escritor, mesmo tendo em toda sua vida lido alguns exemplares da Coleção Vagalume quando no ensino médio. Tanto é assim que, ao se questionar sobre qual o autor preferido de um alguém qualquer, este lhe indicará autores como Machado de Assis (na prosa) e Quintana (no verso). Há gente ótima e viva escrevendo, mas, assim como na música, estão fora da mídia.
A literatura, a escultura, a pintura, o teatro, enfim, todas as artes, formam um conjunto único da história e da memória de um país.
É impossível dissociar Jorge Amado de sua Gabriela, que por sua vez deve estar ainda caminhando por Ilhéus. Mas quem sabe, no futuro, retomemos as rédeas de nossa cultura e vejamos Gabriela ouvindo novos talentos e lendo um romance onde encontre vários Joões, Zés e Marias e Candinhas para lhe fazer companhia.
Não concordando com tudo que está acima, tenha em mente que toda regra tem sua exceção. Vamos então atrás dessas exceções!

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