Por Maria Wagner Foste embora sem avisar. E cá estamos, os teus amigos, tentando assimilar essa repentina viagem, que deixou a incômoda certeza de que a tua ausência será muito mais longa do que qualquer um de nós desejaria que fosse, ou poderia suportar sem sentir um nó no peito, uma saudade compriiiida; eu diria, uma saudade até meio zangada.
Teu jeito discreto, reflexivo, faz uma falta danada em torno da mesa dos restaurantes a que íamos às sextas-feiras – tu, Lorena Paim e eu, sempre; Maristela Bairros, Gonzaga, Núbia Silveira, Inês Bernal – para colocar os assuntos da semana em dia. Então falávamos sobre tudo, desde como preparar um macarrão – com a origem fincada na Itália, ficaste chocado diante da minha heresia, que não sei apreciar o molho vermelho – até as insanidades bushianas. Claro, a política brasileira também entrava na roda. Ora, se não! Mas não vale a pena falar sobre ela agora.
Nem sempre as opiniões coincidiam, mas isso, ao invés de quebrar nossa amizade, tornava-a mais densa. É que, mesmo quando a discordância provocava incredulidade em quem estava do outro lado da mesa e até mesmo um rompante não exatamente gentil na boca de um ou de outro, no final das contas estávamos exercitando um direito que a gente, como jornalista, mais necessita, embora nem todos o tenham, queiram tê-lo ou, tendo-o, façam uso dele sem usar viseiras: o direito de ter opinião própria sem perder os fatos de vista. O direito de pensar com a própria cabeça.
Também tivemos momentos hilariantes, em que passaste do espanto ao riso frouxo. Lembro de quando acabei debaixo da mesa numa pizzaria da Rua Schiller, porque a cadeira simplesmente desencaixou e eu, perplexa, sem atinar de onde vinham os estalos da madeira, fui ao chão. Tão tomado de surpresa quanto o resto da turma, levaste um tempo para me estender uma ajuda. Pudera, o vexame era meu. Não – veio tua correção – do dono da pizzaria, onde um funcionário tentou me compensar do constrangimento oferecendo-me um sorvete e para onde voltamos duas semanas depois, desta vez a fim de verificar se as cadeiras haviam passado pela oficina. Não tinham. E Maristela teria sido a vítima da noite, não fosse mais antenada que eu.
Esse risco não existia na minha casa, onde muitas de nossas conversas começaram na cozinha, continuaram em torno da mesa de jantar e terminaram, com um último palpite, na porta da casa. Meu filho adorava esses bate-papos. Já gostava de Sinatra, Jobim, Bach e de outros desse quilate. Mas tanto louvaste a turminha de Liverpool, que hoje ela também faz parte das preferências dele. Quando lhe contei sobre tua viagem, passou da dúvida ao anúncio: “Então vamos homenagear o Manosso com uma música dos Beatles”. E ouvimos Let it be como se fosse uma oração.
Também gostavas da Jovem Guarda – de Wanderléia, Leno e Lílian, Martinha – e da turma que ousou poetar contra a ditadura no Festival da Canção da Record. Marília Medalha fazia parte. Se não tivesses viajado terias tido a chance de revê-la na quarta-feira, no Festival de Música da TV Cultura, mas agora como compositora de Cassorotiba. Acho que dirias que ela traz o passado de volta. Eu concordaria. Sem espanto. Esse, agora, se faz por conta da tua partida, amigo. Mas te guardo no coração. E talvez já saibas: Sérgio Endrigo – lembras de Canzone Per Te e Roberto Carlos no Festival de San Remo? – viajou ontem.

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