Por Sérgio Capparelli Hong Kong está no sul da China, tão distante de Beijing como Porto Alegre de Salvador. Ela é considerada uma cidade culta, cosmopolita e educada. Mas a Rádio do Comércio fez uma enquete na semana passada, pela internet, para saber a curra preferida dos ouvintes em relação a uma série de cantoras, artistas de cinema e outras celebridades.
Perguntou: “Qual a artista de Hong Kong você mais gostaria de currar?” Houve reclamações, a Broadcasting Authority foi acionada e menos de quatro dias depois a emissora recebeu uma multa de HK$ 140 mil ou US$ 18 mil e foi obrigada a pedir desculpas à população.
O órgão regulador de Hong Kong afirmou que a emissora violou as leis de radiodifusão, insultou as mulheres e enganou os ouvintes, levando-os a acreditar que violar alguém é aceitável.
A Broadcasting Authority afirma que a pergunta dos apresentadores foi de mau gosto porque “currar alguém envolve violência sexual e é um crime por natureza. (…) A forma superficial com que a emissora trouxe esse tema aos ouvintes deu a impressão errônea de que violar alguém é uma questão trivial que pode ser tratada como brincadeira”.
Em texto anterior, nos perguntávamos sobre a responsabilidade individual e coletiva em relação a esse tipo de episódio, que acontece aqui ou em qualquer lugar. E essa responsabilidade era coletiva, na medida em que uma sociedade possibilitava acontecimentos como esse ao estabelecer uma política de radiodifusão voltada apenas para o mercado.
Hoje, no entanto, com a resposta imediata do órgão regulador de Hong Kong, a reflexão muda de foco e de tom. Não se trata de saber como isso pode acontecer. Isso acontece, sabemos todos, porque o erro é inerente ao ser humano. A pergunta deve ser: Como podemos evitar que isso aconteça? E, em segundo lugar, e talvez mais importante, como ter um organismo coletivo, imparcial, que saiba as medidas a serem tomadas para que o fato sirva como exemplo?Em outras palavras, a reação do órgão regulador, rápida e eficiente, transforma a grosseria do erro em um exemplo de como não se comportar, reforçando uma pedagogia que ajude os leitores a se situarem na sociedade em que vivem, de pessoas cultas, educadas e cosmopolitas.
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