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Raivas e mesquinharias, quem não as tem?

Por Paulo Tiaraju Não paira sombra de dúvida que a literatura, o teatro e o cinema, especialmente este último, tiveram e têm um papel …

Por Paulo Tiaraju

Não paira sombra de dúvida que a literatura, o teatro e o cinema, especialmente este último, tiveram e têm um papel relevante na saúde mental das pessoas, na negociação íntima que fazemos acerca dos nossos valores morais e éticos. Em relação às novelas e ao cinema, este é o território das catarses, das simpatias ou antipatias gratuitas, uma zona de silêncio presente em todos nós, uma espécie de terra de ninguém em que opiniões, divergências, conceitos e preconceitos estão imunes à influência de nosso caráter, da educação que tivemos ou do controle de uma consciência, digamos, melhor  elaborada. E quem é este eu, este você que emerge das zonas de silêncio e, de pronto, quer que a fulana vá para o inferno, quer que o beltrano se dane, quer esmagar um inseto além do necessário? O que desagrava este eu, este você, é a volatibilidade dos ódios circunstanciais, o que não é o caso do psicopata. Eu, por exemplo, no território das catarses, um belo dia me dei conta que estava com ódio do Piu Piu e solidário com o Frajola. Não tive nenhuma hesitação em achar que a conduta e as atitudes do Piu Piu podem ser qualificadas como assédio moral. Ou seja, ele seduz, provoca e sacaneia o Frajola e depois, covardemente, corre para se proteger nas benesses do poder oferecidas pela velhota. E tome guarda-chuva na cabeça do Frajola, com direito a estrelinhas saltando para todos os lados, símbolos inequívocos da dor física, do prejuízo moral e do sofrimento psicológico infringidos à vítima. Outra coisa que me deixa p. da vida é quando, durante  99% do filme, o vilão faz as piores e inimagináveis crueldades com a mulher do mocinho, com os filhos do mocinho e, claro, com o próprio mocinho. Pronto, eu, você, todos nos colocamos na pele do mocinho e sofremos com ele. Todos desejamos um gran finale vingativo – e aqui, do ponto de vista emocional, nossos escrúpulos civilizatórios vão para o vinagre -, desejamos um castigo não racionalizável. Algo como uma fantasia selvagem se apodera de nós: “Este safado vai se ferrar, bem ferrado”. Mas,  não. O que acontece? Chega a polícia, prende o cara, e fim. Acabou. Ou, na melhor das hipóteses, ele leva um tirinho, cai morto e pronto. Claro, quando as luzes se acendem, você não comenta com a sua namorada ou com seu marido a fúria que está sentindo e, quando joga o saco de pipoca no lixo, com uma certa energia desnecessária, já passou.

Mas, aqui entre nós, conta para mim: o que você desejou que o mocinho fizesse com o bandido? Tudo bem, não precisa entrar em detalhes sórdidos.

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