Por Jorge Correa Os proprietários de jornais têm dois discursos. Quando estão sentados à mesa de negociação para discutir o acordo coletivo com seus empregados jornalistas dizem que a situação é difícil, o que dificulta a concessão de aumentos reais além da inflação. Contudo, para exibir a boa performance do setor aos seus leitores, não hesitam em usar títulos como ‘Receita publicitária de jornais cresce 20%’ nas páginas de seus diários. Foi assim que Zero Hora exaltou na edição de segunda-feira, 25 de agosto, o desempenho da venda de espaço para anúncios e classificados no primeiro semestre deste ano na comparação com 2007. Usando dados do grupo Meio & Mensagem, ZH destaca que, de janeiro a junho passado, a receita foi 19,8% maior do que na primeira metade de 2007.
Detalhe importante apontado pelo veículo: a fatia dos jornais no bolo publicitário passou a ser de 17,25%, acima dos 16,3% em dezembro e dos 16,7% em junho de 2007. Zero Hora diz, ainda, que “os dados do Meio & Mensagem confirmam um processo de recuperação dos jornais, que começou no ano passado, quando o setor voltou a ampliar a fatia no bolo publicitário nacional”. As boas notícias para o meio empresarial não param aí. “Além do faturamento com anúncios em alta, o bom momento do setor revela-se também nos números de circulação”, propaga a matéria de ZH.
Dados do Instituto Verificador de Circulação – IVC – mostram que, no primeiro semestre, a média diária dos 103 jornais filiados – incluindo o jornal da RBS e a maioria dos diários gaúchos – cresceu 8,1% ante a média de igual período em 2007. No ano passado, ainda de acordo com o IVC, o jornal Zero Hora ocupava o sétimo lugar em circulação paga no Brasil, enquanto o Diário Gaúcho aparecia em oitavo e o Correio do Povo
Portanto, se as fatias do bolo cresceram para o lado empresarial, é justo que elas sejam divididas com os empregados que produzem os jornais diariamente. O discurso da mesa de negociação serve apenas para que os salários fiquem estacionados, enquanto as receitas evoluem de forma acelerada. Repor apenas a inflação não repassa os altos lucros do setor. Tampouco serve de consolo a oferta de 1% de aumento real para o piso da Capital e de 2% para o Interior. Ou, então, comprova-se que o investimento em mão-de-obra é pequeno na comparação com outros custos de uma empresa jornalística. Está na hora de aumentar esta fatia!
Diante de tanta fartura pelo lado empresarial, a categoria está convocada a se mobilizar e lutar por um aumento efetivamente real de salário. Os profissionais precisam recuperar seus ganhos, defasados nos últimos anos em função das constantes disparidades entre receitas e salários. A data-base dos jornalistas é 1º de junho e já estamos próximos de setembro, sem que haja qualquer evolução econômica.

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