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Salsa também é comunicação

Por Sérgio Capparelli Uma semana atrás eu não imaginava que hoje iria aprender a dançar salsa e merengue numa academia de dança de Pequim. …

Por Sérgio Capparelli

Uma semana atrás eu não imaginava que hoje iria aprender a dançar salsa e merengue numa academia de dança de Pequim. Mais tarde, cheguei a ter dúvidas se iria continuar aprendendo, depois da experiência da primeira aula. Tudo porque as meninas hoje, com a diferença de idade, falam chinês e me sinto deslocado.

A salsa e o merengue, além disso, não são essa simplicidade que a gente na televisão. Como disse minha professora chinesa, é preciso disciplina. E eu, no salão de dança, tentava ser disciplinado, mas meus pés, não, porque eles ainda não sabiam conversar em chinês com o ritmo da música.

Começou um dia antes quando eu saí da Jiangguomen, a estação de metrô, aqui perto. A cidade é grande, o mundo é grande, mas às vezes encolhe e a gente encontra quem menos espera. Era o Ken Willand me chamando.

“Você, Ken?”
“How are you?”

O Ken fala assim, em inglês, porque ele é dos Estados Unidos. Dirigia o metrô de Nova Iorque antes de vir para a China, ensinar dança latina. Espera , não está pensando que ele era administrador do metrô. Não, ele dirigia uma composição do metrô, debaixo da terra, entrou na maior escuridão e, por isso, veio para a China.

Encontrei-o algumas vezes no café. Ele também estudava chinês, mas era aluno adiantado. Acho que tem 50 anos, uns 30 mais velho do que eu, caso eu tivesse 20. Outra vez, andava por um hutong – nome sofisticado para favela em Beijing – quando ele passou de bicicleta, numa excursão ciclística pela cidade. Não conversamos daquela vez, porque ele conseguiu dizer que tinham roubado sua máquina fotográfica, com o apoiado no pedal e os olhos na chusma de ciclistas que ia se distanciado.

Ele me deu seu cartão e eu disse que iria vê-lo no Golden Dancing Academy no dia seguinte. E fui. Mas é difícil, essa salsa. Você tem de ajuntar os joelhos, de frente para sua parceira, avança o direito, dois, bate o de apoio, três e volta-o ao ponto inicial, quatro, para começar de novo, dessa vez recuando e, oito, está pronto pra começar de novo.

Os outros movimentos não vou explicar, porque ainda não tenho muita segurança em relação ao que aprendi. adianto que num deles, você segura a mão da parceira, dá um volteio perigosíssimo, faz volteá-la de forma adorável e completa o movimento, quatro.

É mais ou menos isso dançar salsa e merengue. Quer dizer, ainda não sei a diferença dos dois porque tinha uma música e a todo momento o cantor colombiano gritava, “bomba” e todo mundo acelerava, entusiasmado, como se a bomba fosse alguma coisa muito agradável ao explodir.

Havia umas 30 pessoas aprendendo a dançar, 25 mulheres e quatro homens. O grupo foi dividido em três, para três professores, cada um num canto do enorme salão espelhado. Eu entrei na classe inicial, é evidente, com dançarinos e dançarinas diversos. O dançarino mais esquisito era eu, também evidente. Depois tinha uma chinesa muito elegante, de uns 30 anos, que ao sorrir todo o seu rosto sorria. A outra dançarina era da mesma idade, mas tinha a pele mais castigada. Ela tinha ritmo nos pés e nos quadris e dançava picadinho. Eu não gostei que ela dançasse picadinho porque não conseguia acompanhá-la. Ah, também uma menina de uns 20, que em outros tempos me chamaria a atenção.

Descubro, agora, que o problema todo da salsa e do merengue não é da salsa e do merengue, mas de quem está aprendendo a dançar. Essa parte inicial, um, dois, três e quatro, é muito fácil, porque qualquer um sabe, mesmo não tendo ido à escola. A segunda parte é mais complicada, porque não basta saber contar até oito. É preciso fazer a ligação dos números com o movimento. Ou a gente conta rápido ou o corpo tem. Ou então a contagem começa a correr clandestina, para sabotar os esforços do corpo

Eu sei, tem gente que, sozinha, dança com cabo de vassoura na casa vazia ou se solta dançando em primaveras do campo ou da vida. E eu posso dizer com certeza que a vida floresce tranqüila nessa primavera. E que dançar, um, dois, três e quatro, leva o corpo a falar todas as línguas, inclusive o mandarim. Nesses exercícios, os pés tornam-se ventríloquos em termos de ritmo. Eles me ensinaram inclusive como olhar minha parceira, um, dois, volteio, sorria, sorrio, porque dessa vez existe harmonia entre a música e os corpos.

Semana que vem vou aprender cumbia, mambo e chá-chá-chá.

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