O meio publicitário sempre foi pródigo na produção de mitos, principalmente na arte de encantar clientes e plateias. Muitos se tornaram bem conhecidos, populares, extrapolando os contornos da indústria publicitária e influindo na cultura geral de muitos lugares, incluindo países. É o caso de um Júlio Ribeiro, um Washington Olivetto, um Nizan Guanaes e tantos outros.
Este modelo normalmente veio sendo replicado de tal modo que alguns alcançam a fama com um só bordão, já outros precisam de mais ações publicitárias pra conquistarem o reconhecimento. Nos dias de hoje é mais difícil o surgimento de mitos na Comunicação. Olhando para trás, vemos que foi mais difícil ao meio imprensa gerar mitos. Um deles, de fato, foi Samuel Wainer, o imigrante. Mas talento é talento e conforme podemos ler nas diversas biografias envolvendo Wainer e sua Última Hora – sua razão de viver, poucos conseguiram arregimentar tantos e tão talentosos seguidores como ele.
E se quisermos aprender algo sobre coragem, sobre não ter raiva e sobre respeitar nossos sonhos, temos que ler Samuel Wainer, o homem que estava lá, da jornalista Karla Monteiro. Com uma grande diferença geracional – Karla não estava lá, nos vemos diante de uma grande reportagem biográfica. Com isenção, o enredo vai traçando a história política do Brasil, com o paralelo da construção dos sonhos de Samuel Wainer.
O quais eram estes sonhos? Partindo de um pensamento sionista socialista, expandir esta visão para um país mais justo e pleno de cidadania. E ele precisava ser aceito pela sociedade maior (termo usado por judeus em relação a parte goi , gentio, não judeu, da comunidade), pois vinha de uma família de imigrantes cultos, unidos, mas muito pobres.
Primeiro encantou a sua mãe – seus irmãos o tinham claramente como o preferido. Mas também encantava a seus irmãos. Todos. E parece que gostou disto. O livro é de leitura imperdível. Tem a versão dos fatos. Deve-se respeitar todas as interpretações de Karla. Tem valor.
Minha visão, somadas às diversas já escritas, é de um sobrinho-neto por parte do seu irmão mais velho, Artur Wainer. Um tanto suspeita, embora eu me esforce para não sê-lo. Diria até que há um pouco de fantasia na narrativa que formei da sua vida. Teria eu parte das suas qualidades, segundo o que os mais velhos diziam.
Sou bem destemido e um otimista sonhador, incorrigível e sem tratamento. Mas não cheguei aos pés de Samuel Wainer, tampouco de meu avô Artur. Samuel Wainer foi único. Não deixou escola. Representou seu tempo na busca de um Brasil mais justo, virtuoso, não alinhado e independente.
E em relação à Última Hora, um compromisso com a classe trabalhadora. Wainer conseguiu modernizar e melhorar o processo de comunicação brasileiro, fazendo da dignidade, inclusive salarial, uma ponte entre o discurso e a prática. Para ele, jornal era vocação, não patrimônio. Era de fato pessoa encantadora que transitava em todo o arco do poder, de Lincoln Gordon a Darci Ribeiro ou mesmo entre as diversas matizes de sua época, como Nelson Rodrigues por exemplo. E mesmo com Paulo Francis dos primeiros tempos.
Aqui do sul muitos foram “escolhidos”, como Flavio Tavares, Tarso de Castro e o magnífico João Batista Aveline. Sofreu, assim como minha bisavó Dora, a ira do “Corvo” como era conhecido Carlos Lacerda, a inteligência a serviço do lado negro da força. O nome de Lacerda na história esta ligado às piores práticas, aos piores destinos. Nunca perdoou o sucesso do antigo amigo. Ciúmes de homem, dizem, é f…
A história fez justiça e Samuel encanta até o hoje. Já “o Corvo” continua “o Corvo”. Acho que a expressão-chave da vida do Samuel é não ter medo. Ter sonhos e acreditar neles para serem reais. Mas pensar em si sem esquecer do coletivo. Teve uma vida de carrossel e poderia, como poucos, parafrasear Neruda dizendo: confesso que vivi.
Que não seja esquecido.
Enio Lindenbaum é publicitário.
