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Sardas e Tranças

Por J. A. Moraes de Oliveira Passou-se o tempo em que eu voltava a cabeça para olhar as belas mulheres que cruzavam por meu …

Por J. A. Moraes de Oliveira

Passou-se o tempo em que eu voltava a cabeça para olhar as belas mulheres que cruzavam por meu caminho. Quando interrompia os passos apressados e parava para apreciar com devoção o meneio de quadris e o ondular de cabelos soltos em ombros desnudos.

Jovem, gostava de ver passar as meninas nas tardes mornas da Rua da Praia. Eram nossos impossíveis objetos de desejo, que preenchiam as tolas fantasias da adolescência. Elas vinham em duplas, de braços dados, faceiras e fazendo de conta que não nos viam no meio-fio, brincando com os chaveiros e ajeitando os cabelos untados com Glostora.

Esperávamos aflitos por um sinal, um olhar, por mais discreto que fosse. Às vezes, um de nós soltava um afinado assovio e era nosso deleite de felicidade vê-las estacionarem na primeira vitrina, fingindo olhar vestidos e blusas, enquanto arriscavam um olhar pelo reflexo do vidro.

E quando retomavam o passeio, seus andares pareciam mais faceiros, um tantinho mais provocativos. Radiantes, voltávamos para casa, correndo atrás do bonde Prado, com o dia ganho e estórias para inventar para a turma da esquina.

Naqueles dias, as moças de nosso bairro não passeavam de braços dados na Rua da Praia. As severas famílias alemãs e judias mantinham as filhas em casa, com horários rígidos para ir e voltar do colégio. As blusas fechadas dos uniformes e as meias acima dos joelhos não ajudavam em nada os nossos ingênuos sonhos lúdicos.

***

Até que, um dia, um caminhão da Camiza parou diante de um sobrado de janelas verdes na Rua Henrique Dias. Caminhões de mudança eram raros na vizinhança. Ninguém se mudava, as famílias passavam toda a vida nas mesmas casas em que haviam nascido.

Os meninos da Felipe Camarão correram a espiar os recém-chegados. Logo a notícia correu rua acima – uma menina muito bonita fora vista na janela. Era ruiva, tinha sardas e cabelos atados em tranças.

E usava uma blusa decotada.

Excitados, caminhamos até a Henrique Dias, mas não havia nenhuma menina na janela. Os homens do caminhão de mudança xingavam em italiano, carregando um grande piano pela estreita escada lateral do sobrado.

Na volta para casa, nossas vizinhas já sabiam quem eram os novos moradores. Tratava-se de uma família de judeus, recém-chegados da Bielo-Rússia, o chefe da família era joalheiro e a filha mais nova, estudante de piano.

Eu era um garoto tímido, que nunca tivera namorada para valer, mas parecia que isto estava prestes a mudar. Comecei a fazer planos para conhecer a moça de tranças que viera de tão longe.

***

No dia seguinte, alterei meu percurso diário até a Padaria Três Estrelas. Em vez de seguir pela Vasco da Gama e descer a Fernandes Vieira, passei a dobrar na Felipe Camarão e entrar na Henrique Dias, passando devagar diante do sobrado de janelas verdes.

Na primeira semana, via-se muito movimento na casa, com gente entrando e saindo, mas nem sinal da menina de tranças. Eu estava quase desanimando, quando a vi pela primeira vez. Era um sábado, eu voltava da padaria, abraçado a um grande saco de pães e biscoitos.

A moça não era tão bonita como diziam os meninos, mas tinha graciosas tranças e seu rosto e ombros eram pintalgados de sardas. E eu nunca havia visto antes uma moça com sardas nos ombros.

Naquele instante, ela me olhou e arrisquei um atrevido “boa tarde”, ao que ela sorriu brevemente, ajeitando as fitas das tranças vermelhas.

Dali por diante, todos os dias, ao passar pela Henrique Dias, reduzia o passo para escutar o piano pelas janelas abertas. Marquei o horário dos estudos da moça e até atrasei as idas à padaria, para tentar vê-la no intervalo das lições.

***

Passaram-se semanas, eu já sabia que a moça de sardas se chamava Judite e que não ia ao colégio, estudando com professora particular, piano, aritmética e geografia. Ninguém no bairro a havia visto fora de casa, a não ser em um bonde Petrópolis, acompanhada dos pais, a caminho do Centro.

Aos poucos, meus sonhos com Judite começaram a se desvanecer e já não olhava com tanta aflição para as janelas verdes do sobrado da Henrique Dias. Mas os acordes de Reverie, de Debussy, que ela tocava todas as tardes, me acompanhavam até quase a esquina de minha rua.

Naquele verão, fiquei de cama com catapora, e por noites febris ainda sonhava com a moça de sardas nos ombros. Mas, no dia em que voltei à rua, encontrei o sobrado da Henrique Dias com as janelas fechadas. A dona Anita, do bar da esquina, contou que a família havia se mudado para outra cidade e deixado contas do mês por pagar.

Foi a primeira e última vez que vi uma moça de sardas nos ombros e cabelos vermelhos em tranças.

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