Por Luiz Fernando Moraes
A extraordinária diversidade cultural e natural do Brasil constitui um ativo precioso para o desenvolvimento do ainda incipiente Turismo nacional. Raros são os países com tamanho patrimônio, o que nos impõe a difícil tarefa inconclusa de apresentar ao mundo tamanha variedade de oferta e um incrível estoque de atrações ainda desconhecidos do público internacional, quando não da própria população brasileira.
Entretanto, muitos desses atrativos e serviços ainda não são produtos turísticos estruturados, prontos para serem oferecidos ao mercado, conferindo razão ao trabalho de regionalização, por meio do programa dos 65 Destinos Indutores, e da organização de segmentos que vem sendo feito pelo Ministério do Turismo. Entre esses segmentos estão algumas preciosidades escondidas e menos ortodoxas, como o Turismo de Saúde. Na verdade, viajar para tratar da saúde é uma atividade tão antiga quanto à história da humanidade, mas esse movimento estruturado, que passou a se chamar de Turismo de Saúde, é tão novo – no mundo todo – que mesmo profissionais e empresários do Turismo sabem pouco do tema.
O Turismo de Saúde é a movimentação de pessoas entre países para tratamento de saúde ou bem-estar, essencialmente para as chamadas cirurgias eletivas (não-urgentes), tais como cirurgias plásticas, ortopédicas, bariátricas, além de tratamentos odontológicos em geral e outros, como programas de emagrecimento. O Brasil recebe – e os números não são precisos – cerca de 60 mil pacientes estrangeiros por ano. Se você achou esse um número importante, prepare-se: a Índia recebe 450 mil e a Tailândia, 1,2 milhão, para citar dois exemplos. Mas outras nações também já se consolidaram no setor, como Costa Rica, Malásia e Cingapura. E outras que estão correndo a passos largos, como a Colômbia, a Turquia e o emirado de Dubai.
Toda essa mobilização se dá em cima de números superlativos: perspectiva de crescimento de 30% ao ano do setor, segundo o Banco Mundial, e a movimentação de 6 milhões de pacientes pelo mundo em 2010, girando uma fortuna de US$ 10 bilhões, de acordo com a projeção de estudo da Deloitte Development LLC, de 2008. Para a consultoria norte-americana, só os Estados Unidos mandaram mais de 1 milhão de pacientes para outros países em 2010, com gastos médios individuais por tratamento de US$ 16 mil dólares, dos quais 40% vão para a saúde e os demais 60% se distribuem nas atividades turísticas.
A qualidade dos serviços de saúde é um pressuposto para qualquer país que pretenda se candidatar a esse mercado. E o Brasil tem. No país, estima-se que cerca de 50 hospitais estejam aptos dentro dos padrões internacionais para receber pacientes estrangeiros, embora apenas 15 destas instituições hoje estejam certificadas pela Joint Comission Internacional (JCI), principal entidade de acreditação para o mercado norte-americano. Destes hospitais, 9 estão em São Paulo, 5, no Rio, e 1, em Porto Alegre.
Se a qualidade é um pressuposto, os outros fatores se constituem em elementos definidores da tomada de decisão de pacientes ou de seus agentes, a começar pelo preço. O Brasil é competitivo em preço, com tabelas que podem chegar a menos da metade dos valores praticados nos Estados Unidos. Contudo, preço também não é tudo. E o Brasil cresce positivamente pelos outros fatores, como os naturais, na ausência de elementos de grandes riscos, como tufões, furacões, tsunamis e nevascas, como a estabilidade política e social, a economia estável, a cultura e a população amigáveis e a proximidade geográfica da América do Norte e da Europa comparativamente aos mercados asiáticos.
Temos os principais requisitos, mas a jornada ainda é longa. E está começando por colocar frente a frente setores que nunca se falaram: a Saúde e o Turismo, cada qual com suas particularidades estranhas ao outro. Na seqüência, uma fila de questões: vistos de entrada, protocolos para situações de complicações médicas, contratualizações entre parceiros locais e internacionais, desenvolvimento de áreas internacionais nas instituições, pagamentos entre países e estratégias e planos de promoção. Mas se há muitas pautas a serem desvendadas ainda, é seguro que não precisamos responder a todas para entrar no mercado. Essa indústria é tão nova que nem os países que hoje são os grandes players já têm respostas para tudo. Portanto, não temos nada a esperar. Mãos à obra.

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