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Sêneca em Brasília

Por Sérgio Capparelli Sêneca (4 aC- 64 dC), adaptado por Sérgio Capparelli Às vezes, lemos as notícias dos jornais sobre a corrupção, os delitos …

Por Sérgio Capparelli

Sêneca (4 aC- 64 dC), adaptado por Sérgio Capparelli

Às vezes, lemos as notícias dos jornais sobre a corrupção, os delitos impunes e os escândalos de Brasília e nos entristecemos. Somos tomados de ódio pelo ser humano e pensamos, puxa, não tem conserto mesmo! De repente nos damos conta do quanto é rara a honestidade entre os representantes públicos, pois a lisura é quase desconhecida e a lealdade, inexistente, pelo menos aquela que não traz vantagem. Se pensarmos no quanto a corrupção oferece a possibilidade de ganhos odiosos, e se examinarmos a ambição cada vez maior de se tornar conspícuo pela desonestidade, então sobre o nosso espírito desce a noite. É como se desaparecessem todas as virtudes, já que elas não oferecem mais esperança nem têm utilidade na vida diária.  É por isso que somos invadidos pelas trevas.

Então, lendo mais uma vez sobre esses acontecimentos recentes de Brasília, somos induzidos a acreditar que todos os vícios humanos não são odiosos, mas ridículos, preferindo imitar mais Demócrito, que Eráclito. O primeiro caminhava ontem chorando pela Esplanada dos Ministérios. O segundo, ria. Para um, tudo o que acontecia tinha o rosto da miséria. Para o outro, nonsense. É preciso então não dar muita importância a tudo isso e a ler as notícias desses escândalos com o melhor ânimo possível: à natureza humana, é preferível o riso ao pranto.

Tem mais valor quem ri do que quem chora diante dos males do gênero humano. Porque quem ri envia ainda uma mensagem de esperança, ao contrário de quem erradamente se desespera, por acreditar que não existe uma solução. Considerando os escândalos da Câmara nos seu conjunto, quem não freia o riso, caindo em gargalhadas, mostra mais força de ânimo do que quem se arrasta aos prantos. É próprio de um espírito equilibrado não achar, na comédia humana, nada de importante, sério ou deplorável.

Examinemos as razões pelas quais ficamos felizes ou tristes e descobriremos o quanto é verdade o dito de Bione: “Toda ação humana é uma pálida tentativa e sua vida não tem mais valor ou importância que a de um embrião”.

Mas é melhor aceitar tranquilament a moralidade pública e os defeitos humanos sem cair nem no riso nem no pranto, porque se atormentar pelos males dos outros quer dizer condenar-se a uma perpétua infelicidade, e alegrar-se diante desses mesmos males é condenar-se a um prazer desumano.

É inútil sentirmos piedade ou chorar porque a Dilma tem um linfoma, caso tentemos adaptar nosso rosto às circunstâncias. Da mesma forma, na desventura temos de conceder à dor apenas o que ela exige por natureza, não o quanto exigem os costumes os flashs das máquinas fotográficas. Caso contrário, as pessoas irão chorar para aparecer e vão se calar, quando não houver audiência, pois acham conveniente chorar apenas quando todos choram: tornou-se tão arraigado o mal de se deixar condicionar pelos outros que até um sentimento natural, como a dor, vira ficção.

* Sérgio Capparelli é jornalista e escritor, colaborador de Coletiva.net.

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