Por Carolina Zogbi
Na próxima sexta-feira é véspera de natal, e também estará em cartaz o filme “Sentimento de culpa” (Please Give, 2010), de Nicole Holofcener (mesma diretora de amigas com dinheiro). Assuntos diretamente relacionados: em época de final de ano, muita gente gosta de fazer um balanço das ações e também construir novos projetos. Tudo a ver com esta produção.
Na verdade, este longa não passa de uma imensa crítica à sociedade moderna, como tantos outros. Mas a abordagem vem de outra maneira: como as pessoas agem com a culpa que trazem dentro de si, e a forma como transformam um grande trauma ou medo em constantes ferramentas para se machucarem e também ferirem as pessoas que as rodeiam, tudo isso sem saber.
No roteiro está a personagem principal interpretada por Catherine Keener; como a maioria das pessoas ela tem praticamente tudo, mas está sempre procurando por algum motivo para ficar mal ou se deprimir, e dessa maneira descarrega tudo no trabalho voluntário, seja doando dinheiro ou atenção. E aí o grande destaque, o filme não presta um desserviço a quem é adepto desta atividade, mas mostra como muitas pessoas cuidam de moradores de rua que nem conhecem, dão dinheiro a pessoas que nem sabem do que realmente precisam, enquanto há familiares, amigos e outros necessitados bem ao lado delas, que além de não serem atendidos ainda são prejudicados com essa falta de interesse. É um descarrego inconsciente que poderia ser melhor aproveitado.
Tendo a maravilhosa cidade de Nova Iorque como pano de fundo, aliada à história de perturbação psicológica e neura dos personagens, o roteiro lembra a temática usada por Woddy Allen. A história também pode ser comparada com o sarcasmo dos irmãos Coen, para debochar de toda a hipocrisia da sociedade: uma mulher que precisa se sentir mal para poder ajudar estranhos, enquanto vive de um negócio duvidoso sem dar atenção para a própria família, ou a senhora rancorosa que depende das duas netas: uma muito atenciosa e reprimida e outra sincera e cruel.
Este filme mostra que todos nós arrumamos um ponto de fuga para nossos medos, traumas, doenças, mas muitas vezes tentando fugir fazemos justamente o oposto do que não queremos. Muitos desentendimentos, frustrações e até a total infelicidade podem ser frutos de apenas um sentimento de culpa, que pode ser muito bem tratado antes que vire a culpa final. E não vai ser dando dinheiro ou atenção que as grandes falhas vão ser apagadas da memória.
Em resumo: é melhor fazer o bem mesmo (e apesar de) sabendo a quem do que praticar a caridade indiscriminada apenas como maneira de redimir-se pelos erros cometidos.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial