Artigos

Sig e os intelectuais… e se foi mais um, infelizmente

Por Rafael Bordin Schuch Dias atrás recebemos a triste notícia do falecimento de Ivan Lessa, um dos membros da famosa patota do jornal crítico …

Por Rafael Bordin Schuch

Dias atrás recebemos a triste notícia do falecimento de Ivan Lessa, um dos membros da famosa patota do jornal crítico “O Pasquim”. Paulista de nascimento, mas carioca de criação, o jornalista estava radicado desde 1978 em Londres, e nunca deixou de escrever, trabalhando sempre. Está sendo um ano triste para os fãs daquele que foi, ouso dizer, o maior jornal do país de todos os tempos, pois deixaram este mundo também o humorista Chico Anysio em 23 de Março, que não era integrante oficial do jornal mas frequentador assíduo daquele grupo de jornalistas da banda de Ipanema, e o cartunista carioca Millôr Fernandes, quatro dias depois. Em 1997 faleceu Paulo Francis. Nos últimos anos, infelizmente, estão nos deixando os maiores jornalistas que este país já teve.

Assim como Paulo Francis, Lessa era debochado, irônico, provocador e mordaz nas suas críticas à sociedade, possuindo uma feroz visão crítica em relação ao “Bananão”, como ele chamava debochadamente o Brasil. Dono de uma inteligência perspicaz, Lessa dizia o que pensava, da forma que pensava. Criador de frases, constantemente expressava uma definição que se tornou recorrente na boca de muitos: “A cada 15 anos o Brasil se esquece do que aconteceu nos últimos 15 anos”. O jornalista Diogo Mainardi, que tinha como tutores intelectuais Paulo Francis e Ivan Lessa, comentou a importância de Lessa para sua formação afirmando: “Ele foi a pessoa mais importante da minha vida”. 

Lessa foi o precursor daquele tipo de humor anárquico que influenciaria a turma do Casseta e Planeta anos depois. Expressava um humor corrosivo, implacável nas observações e muito desconcertante. Tinha uma personalidade sarcástica. Assim como Woody Allen, além do bom humor, apresentava a característica do mau humor, típica dos humoristas. Antes de escrever para O Pasquim, Lessa colaborou com a revista de cunho cultural “Senhor”, publicação que, além de conter nomes do porte de Clarice Lispector e João Guimarães Rosa, lançou talentos como Paulo Francis e Jaguar.

Em 1969, junto com Ziraldo, Millôr Fernandes, o gaúcho Tarso de Castro e Jaguar, fez parte do famoso grupo de intelectuais que criou o mais irreverente jornal já publicado no país, célebre, entre outros motivos, por sua resistência no período da ditadura militar. Era um dos principais colaboradores no satírico Pasquim em que escrevia, entre outras, as colunas “Gip! Gip! Nheco! Nheco!”, “Fotonovelas” e, após sua mudança para a Inglaterra, a coluna “Diários de Londres”, na qual mostrava a sua crítica do Brasil com o olhar de quem está fora do país. Além de jornalista, cronista, editor e escritor, era também tradutor, tendo sido autor da tradução para a primeira edição brasileira, em 1975, na coleção Clássicos Modernos, da editora Abril, de “A Sangue Frio”, de Truman Capote. 

Junto com o cartunista Jaguar foi criador de um dos símbolos do Pasquim, o rato Sig (uma referência ao pai da psicanálise Sigmund Freud), baseado em uma anedota recorrente na década de 70 na qual se dizia que se “Deus criou o sexo, Freud criou a sacanagem”. Sig era uma forma debochada de criticar os intelectuais da época que se achavam cultos e refinados, em um momento em que o necessário era ser crítico à ditadura militar. Como disse Lessa em entrevista, “o Sig virou marca registrada do Pasquim. Ele sacaneava os intelectuais de Ipanema, seria uma espécie de grilo falante do bairro”.

Como refletiu Winston Churchill, coincidências são apenas trocadilhos espirituais, e perto de seu fim, o escritor, em sua última crônica escrita para a BBC do Brasil, ironizava com uma lista de frases a morte que, infelizmente, chegaria dias depois. Para quem não faz a mínima ideia de quem foi Ivan Lessa, ler o legado de artigos, críticas, crônicas e textos escritos por ele é uma boa forma de conhecer as opiniões e as ideias deste jornalista. Para aqueles que como eu não tiveram a oportunidade de comprar diretamente na banca o maior fenômeno editorial brasileiro chamado “O Pasquim”, informo que estão à venda nas livrarias, pela editora Desiderata, três volumes iniciais com o título “O Pasquim – Antologia”, compilação dos seus melhores textos, charges e entrevistas.

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.