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Só faltou a Anita

Por Clô Barcellos Temos de admitir. Nada de novo sob o sol. E tudo acontece de novo. A homenagem, ou mesmo a releitura, encontrada …

Por Clô Barcellos Temos de admitir. Nada de novo sob o sol. E tudo acontece de novo. A homenagem, ou mesmo a releitura, encontrada em “A Grande Beleza” tem, certamente, foco em Fellini. Em “A Doce Vida” encontramos os mesmos personagens, as mesmas cenas, a mesma estrutura. Um jornalista que não encontra tempo para escrever um livro. Que convive em meio a uma classe de intelectuais e ricos, um homem charmoso que hipnotiza ao sorrir, e encanta, e compreende, belas mulheres.

Encontramos aquele mesmo tédio da burguesia, que com dinheiro em excesso, se diverte até empapuçar os sentidos.

Em ambos os filmes, consta a exploração da fé. Em “A Doce Vida”, crianças veem a santa Madonna. Em “A Grande Beleza”, há o cardeal, ex-exorcista, que recita a luxúria de receitas exuberantes, enquanto a miséria emociona a uma mãe de Calcutá. Queremos acreditar e, ainda que incrédulos, basta meio sinal, ou um sopro que faz levantar o voo dos flamingos, e estamos de volta, acreditando ainda mais.

Os paparazzo sugam celebridades na obra de Fellini. Em “A Grande Beleza”, os editores fazem o mesmo papel, prometendo revelar ao público verdades misteriosas ou desmascarar, em grandes entrevistas, teses de falsos artistas.

“A Grande Beleza” tem um passado cinematográfico. Fellini já reconhecia que o público pasteurizado precisa vivenciar os almejados trenzinhos dançantes, as caminhadas secretas por castelos em ruínas entre obras de arte milenares, as conversas sofisticadas em petit comitê. No entanto, ambos os filmes nos contam também que a felicidade de condes e príncipes, apesar de travestida de sucesso, esconde a nostalgia de uma vida que já fez sentido. Em “A Grande Beleza”, o que fica é uma gravação sobre um filho morto. Em “A Doce Vida”, o personagem rico,  sensível e culto, vira um assassino da própria família. Assim, nossos maiores exemplos caem por terra.

Paolo Sorrentino seguiu o caminho do grande provocador, Federico. E leu em seus fotogramas.

Com o pretexto de nos divertir, ambos apresentam um deboche de nossos desejos na tela. Sim. Queremos festas, queremos drogas, bebidas, homens ou mulheres. No entanto, ao estarmos totalmente deliciados e inebriados, surge a crítica pelo que não conseguimos enxergar, e está em nossa frente: a verdadeira grande beleza.

Depois de desmascarada a grande farsa, nos resta a inocente, e bela por conceito, Itália. O cineasta Sorrentino finaliza deixando Roma à nossa disposição. Com suas grandes mulheres e sua cultura extrema. Fellini nos deixa um segredo sussurrado, que vem do futuro.

E, nós, humanos bárbaros, com ou sem dinheiro, continuaremos buscando algum sentido nisso tudo, sem conseguirmos sequer tangenciar a grande beleza.

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